Tem cada gripe neste mundo.
A gripe do João Gilberto é seletiva.
Chega com um mês de antecendência em relação a um show.
No caso, o show de Porto Alegre.
Mas não atinge outros shows pelo Brasil.
A ciência certamente explica essa disparidade.
Eu ia ao show do João Gilberto.
Confesso que paguei mil balas para vê-lo.
Mil para mim e mil para a Cláudia.
Sou um perdulário, um burguês nojento, um ser desprezível.
Eram as minhas economias da venda de livros.
Gastei todos os meus direitos autorais de dez mil exemplares para ver o mago da Bossa Nova.
Ele repetiu uma velha mania.
Deu uma banana para nós.
Gastei, sim.
Queria ver João Gilberto ao vivo.
Seria a primeira e, talvez, a última vez.
Eu estava preocupado com o clima.
Se chovesse, o barulho da água poderia levá-lo a cancelar a apresentação.
Se fizesse frio, ele poderia se recusar a cantar por causa da garganta.
Com muito calor, ele não se entenderia com o ar-condicionado.
Mas, pelo jeito, não teve tanto maluco como eu para comprar ingressos.
Essa falta de doidos com mil balas no bolso produziu uma onde de vírus,.
Os bichinhos dominaram o cantor.
Vou levar 20 dias para recuperar a grana.
No meu próximo lançamento, farei como o João Gilberto.
Se não tiver ninguém na fila, fico gripado.
Para comparecer, pedirei 300 toalhas brancas, 200 gatas de minissaia, 150 garrafas de champagne francês, 221 jornalistas me fazendo perguntas, espaço nos jornais antes e depois do evento e oito vitórias consecutivas do Internacional, quatro antes e e quatro depois dos meus autógrafos.
Pensando bem, só farei lançamento se o João Gilberto vier cantar para quem estiver na minha fila.
Ah, exijo a Ana Paula Arósio e a Mariana Ximenes escrevendo o nome de cada leitor em pedacinhos de papel perfumados para eu não pagar mico esquecendo a identidade de algum fã incondicional.
Entre nós, é o mínimo que eu mereço.
Ou começo a espirrar.
A tosse já não me larga mais.