Juremir Machado da Silva

A História como romance

A História como romance

Sou um romancista solitário.
Conto a História como romance.
Isso não significa história romanceada.
Mas algo inteiro, sem água no vinho.
Faço do passado real uma realidade presente.
Não tenho escola nem companheiros nessa atividade.
Abomino praticamente tudo o que é feito nesse campo de maneira convencional.
O romanção histórico para mim é um morto vivo.
Quero a História como romance.
Rio quando dizem que há fatos históricos demais em meus romances.
Não invento.
Conto aquilo que pude apurar como tendo sido.
Tudo é História em meus livros.
Assim já era em Getúlio.
Assim é muito mais em 1930.
Faço, nesse campo narrativo, romances de não ficção.
Romance é a maneira de contar.
As pequenas invenções dos romances históricos me cansam.
Quem lê um romance meu, um romance História, lê História e história.
Um jornalista me questiona: por que Getúlio era tão prudente?
Por que João Neves era tão impulsivo?
Era da personalidade deles.
Está implícito.
Eles eram assim.
Seus atos o demonstram.
Suas conversas comprovam isso.
Os documentos históricos não deixam dúvidas.
Um ponderava. o outro atacava.
Explicar suas personalidades?
Elas se autoexplicam pelo vivido.
Eles foram assim.
Por que de uma revolução de elites surgiu uma revolução social?
Porque os homens contam na história, e Getúlio tinha seus planos e surpresas.
Foi o homem certo num momento inesperado.
Ou o homem inesperado no momento certo.
Por que a pequena história história segue em paralelo à grande História?
Porque é a vida é assim.
Porque na vida tem sido assim.
A História não se presta à forma romanesca?
A História é a forma romanesca.
Por que não um relato unitário?
Porque a vida é fragmentada.
A unidade é uma ilusão estética ultrapassada.
(A campanha do Correio do Povo terminou. Meu romance 1930 pode ser encontrado nas livrarias Cultura, Saraiva e muitas outras. É um belo presente de Natal. Não me constranjo dizê-lo).