A imparcialidade das primeiras páginas
A mídia acredita na sua imparcialidade. De tanto contar para o público que é neutra, a imprensa acaba, às vezes, por acreditar no seu truque. É verdade que muitos jornais e jornalistas procuram desesperadamente ser justos. Mas a chamada grande mídia brasileira, instalada nas deliciosas terras cariocas ou na fuliginosa pauliceia violentada a cada dia, parece que já não se preocupa com isso. Não por mérito de transparência, mas por interesse mesmo, nem sempre republicano. No último domingo, o jornal Estado de S. Paulo, que não esconde suas preferências políticas conservadoras, sempre apresentadas como modernas, publicou pesquisa do IBOPE sobre a relação dos brasileiros com a política. O vetusto Estadão, no seu site poluído, noticiou assim os resultados: “Brasileiros que se dizem apartidários são maioria pela 1ª vez desde 1988 - Pesquisa mostra que índice de brasileiros sem preferência por legenda saltou de 38% para 56%”.
Um segundo título, um pouco menor, destacava: “No Sudeste, preferência pelo PSDB cai para a metade do que era em 1995”. Na linha de apoio: “Preferência pelo partido tucano caiu de 14% para 7% em dezessete anos”. No site da Folha de S. Paulo, com os devidos créditos ao Estadão, aparecia: “Fato inédito desde a redemocratização – Brasileiros sem partido são maioria pela 1ª vez desde 88, aponta Ibope”. No Bahia Notícias, outro enfoque: “PT é o partido mais querido dos brasileiros, aponta Ibope; PMDB é o segundo”. Numa série de blogs, a mesma abordagem. Na página de abertura de O Globo, nenhuma linha. O destaque ficou para “Ex-presidente Lula é eleito a personalidade mais corrupta de 2012”. Três linhas de apoio: “Algemas de Ouro também premiou o senador cassado Demóstenes Torres e o governador Sérgio Cabral”, “eleição foi marcada por fraude eletrônica na votação” e “perfis falsos no Facebook direcionaram 38% dos votos para candidatos ligados a PSDB e DEM”. Que eleição é essa?
Uma brincadeira em ritmo de carnaval feita no Leblon. Uau! Na capa! A matéria da Folha de S. Paulo sobre a pesquisa do Estadão resumiu assim o quadro: “Os dados do Ibope mostram uma queda na popularidade do PT entre os brasileiros desde março de 2010, último ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Naquele momento, antes de a campanha eleitoral esquentar, o partido atingiu o auge na preferência dos eleitores: 33% dos entrevistados. Em outubro de 2012, o porcentual caíra para 24%”. Para fechar em grande estilo, explica: “O PT, no entanto, ainda se mantém na liderança como o preferido do eleitorado, na frente do PMDB e do PSDB, apontados como favoritos por 6% e 5% dos entrevistados, respectivamente”. Nenhuma linha sobre a queda tucana.
Ricardo Noblat foi mais longe: “Brasileiros que se dizem apartidários já são maioria. E cai preferência pelo PT”. Ficou assim em títulos: O Globo não viu a pesquisa, o Estadão preocupou-se com a derrocada do PSDB, a Folha não prestou atenção nesse detalhe desagradável para os tucanos e, sintomaticamente, nenhum dos jornalões destacou que, apesar do mensalão, o PT continua na frente. Só “blogs sujos” e jornais periféricos viram isso. Prova de que não existe o fato. Só as suas versões.