Juremir Machado da Silva

A morte de Ayrton Senna e os arquivos da ditadura

A morte de Ayrton Senna e os arquivos da ditadura

Eu cobri a morte de Ayrton Senna. Lembro-me de ter escrito para o jornal um texto melancólico: “A multidão não se afastou nunca da frente do Instituto de Medicina Legal de Bolonha. Finalmente, às 13h30min, Dott Pintor, procurador da República, reuniu os jornalistas para anunciar que o corpo do piloto brasileiro estava liberado. A autópsia, conforme o primeiro relatório médico, provisório, anunciado pelo doutor Martinelli, revelou que a morte acontecera na pista logo após a violenta batida contra o muro do circuito de Imola. Consternação”.
Lembro-me também da indignação das pessoas e dos absurdos acontecidos: “A notícia suscitou a ira de todo mundo. Os médicos explicaram que houve, em todo caso, a conservação por algumas horas das funções vitais através do uso de uma aparelhagem sofisticada. A morte cerebral, entretanto, já havia arrancado Senna das corridas. Gerhardt Berger ainda lutava para conseguir um helicóptero que o transportasse de Imola a Bolonha quando recebeu o aviso de que era tarde demais. Conclusão: a direção da prova, os chefes de equipe e todas as autoridades da fórmula 1 esconderam a informação para manter a prova até o fim. Venceu a lei implacável do espetáculo”.
Lembrei-me disso tudo hoje por causa de uma conversa com um amigo.
Ele me disse, com segurança, algo assim:
– Quem teria coragem de abrir os arquivos da ditadura?
Foi aí que me veio à mente meu texto sobre Senna, mais especificamente esta incrível declaração: “Ivan Cappelli, em um debate na televisão pública italiana, justificou a decisão com uma pergunta: “Quem teria coragem de anunciar aos 110 mil espectadores a interrupção da prova?” Na época, jovem correspondente internacional, fiquei estupefato. Tudo, porém, ainda me surpreendia.
Escrevi assim: “Homens sensatos não faltariam para isso. Os médicos também terão de explicar-se mais sobre o que aparecerá para muitos, caso o laudo final confirme a morte instantânea, como um teatro lamentável. A ausência dos pilotos em Bolonha parece provar que o mundo da fórmula 1 é feito mesmo, para além da paixão e do esporte, de ambição, hipocrisia, violência e exibicionismo. Não faltaram torcedores para montar cenários úteis à sede de imagens fortes da televisão. O desaparecimento de Senna serviu para que alguns pudessem aparecer”.
A manutenção dos arquivos da ditadura fechados serve para que alguns que aparecem continuem desaparecidos?