Juremir Machado da Silva

A morte de Eliseu Santos

A morte de Eliseu Santos

O assassinato do secretário da Saúde, Eliseu Santos, é um choque mesmo para quem mal o conhecia. Porto Alegre foi sacudida nesta sexta-feira em cada bairro.
Eliseu Santos tinha muitos admiradores.
Era um homem público atuante. Fora deputado e vice-prefeito de Porto Alegre. Era secretário da saúde.
Vinha de uma família humilde. Vencera pelo estudo.
Era religioso praticante.
Uma trajetória de batalhador.
Todos ficamos com uma constatação óbvia nos lábios: os homens matam. Continuam matando. Somos os mesmos.
A humanidade nunca será totalmente humana.
Nunca se livrará dos seus predadores.
Viverá acossada por seus desviantes.
Civilizar os animais humanos é uma tarefa incessante que, volta e meia, esbarra num fracasso, na barbárie.
O selvagem que dorme dentro de nós se alimenta de impunidade e de sentimentos perversos jamais suficientemente reprimidos ou controlados.
Em alguns, no entanto, o selvagem vive desperto.
A barbárie está sempre dentro dos nossos muros.
O absurdo não é que tenhamos mais violência hoje do que antes. Certamente temos menos. O inaceitável é que assassinatos continuem a ser cometidos por encomenda.
Ninguém esqueceu a execução do radialista Daudt.
Quem foi condenado?
Ainda não se resolveu o caso bem mais recente do assassinato do médico Marco Antônio Becker.
O crime anda mais rápido do que a lei.
É da sua natureza.
Em alguns lugares, porém, o controle é maior.
Porto Alegre tem seus gângsteres, seu submundo, seus subterrâneos, sua escuridão, seus desvãos insondáveis.
É uma cidade de faroeste.
Os bandidos parecem levar nítida vantagem. Eles são muitos, cada vez mais bem armados e nada mais temem.
Homens armados tocaiam um homem de bem e o executam diante da mulher e da filha. Um filme de terror.
Tristes noites de uma cidade como outra qualquer.
Eliseu Santos morreu atirando.
Vinha sofrendo ameaças e havia passado recentemente na polícia para obter informações sobre porte de arma.
Já se tornou tradicional receber a notícia, em alguma noite supostamente tranquila da capital gaúcha, do assassinato de uma personalidade pública. Rotina.
Há pouco um jornalista foi ameaçado de morte.
Avisos são dados, repetidos abertamente. Um jovem de 25 anos foi executado no Natal depois de ter brigado com a mulher de um chefe do tráfico. C’est la vie. A morte.
Que interesses Eliseu Santos terá contrariado?
Que forças malignas terá enfrentado?
Que monstros terá provocado?
A quem terá dito não?
Especula-se na imprensa que ele tivesse problemas com uma empresa de segurança cujos serviços para a Secretaria da Saúde havia dispensado.
Pode ser. Pode não ser.
O Brasil tornou-se pantanoso.
Tivemos em São Paulo o caso de Celso Daniel.
O mistério, aliás, continua.
Eliseu Santos frustrou algum plano escuso.
Pagou com a vida por alguma atitude de honestidade.