Juremir Machado da Silva

A morte de Sócrates

Primeiro o homem luta pela sobrevivência.

Alguns passam a vida nisso.

Aqueles que superam essa barreira passam a lutar por reconhecimento, prestígio, poder e prazer.

Querem sentir-se ocupados e importantes.

Deve ser da natureza humana essa vontade de reconhecimento.

A política, por exemplo, é um jogo que permite, ao mesmo tempo, sentir-se útil, importante, reconhecido e ocupado.

Sócrates foi um grande jogador.

Fez o praticamente impossível: formou-se em medicina na condição de atleta.

Brilhou nos campos, politizou o futebol, ajudou a inventar a democracia corintiana, quebrou um paradigma: era um jogador com cérebro, ideias, posturas políticas e muita personalidade.

Terminada a carreira de jogador não conseguiu mais sentir-se ocupado, útil, importante e prestigiado.

Não deu certo como treinador.

Não deu certo como médico.

A sobrevivência estava garantida, pé-de-meia feito.

Desamparado, Sócrates bebeu a cicuta dos tempos atuais: álcool. Cerveja.
Não me consta que tenha tentado a política.

Teria sido um excelente senador.
O homem é um ser lúdico, uma eterna criança.
Se não tem um brinquedo, um jogo que o faça sentir-se grande, definha.
O inteligente Sócrates não conseguiu encontrar esse novo jogo depois do futebol.
Uma pena!