A morte na tevê em Solo
Embarco para o Rio de Janeiro.
Quero botar os pingos nos is. Sou de rompantes. Vou tirar a prova dos nove. No avião, leio sobre Avril Lavigne e Britney Spears. Adoro musas teen. São tão sensivelmente idiotas que a gente quase acredita na autenticidade delas. É tudo falso. Mas soa absurdamente verdadeiro. Tem algo de religioso na sacanagem do marketing: qualquer asneira pode virar uma coisa sagrada. O essencial é que as meninas são muito gostosas. Os adolescentes não passam de uns trouxas, cevados que nem gansos para o abatedouro, que imaginam estar consumindo rebeldia e atitude. Na verdade, compram merdinha cheirosa e pagam as fraldinhas milionárias do bebê de Britney. Os ídolos dos velhos que viveram 1968 não são melhores. Nem os fãs menos babacas. Nada mais patético do que aquele cara dos Stones, não o Mick, o outro, o Keith Richards, todo enrugado, feito um índio de western italiano, roqueiro da terceira idade, exibindo sua rebeldia maconheira retrô para um público hippie de bengala que, no Brasil, metade votou no FHC e metade acreditou na revolução petista do Lulinha paz e amor. Um bando de velhotes ricos, drogados e barulhentos.
Adoro roqueiros. Vestem-se com tanta rebeldia que parecem todos uns vampirinhos de novela das sete. Assustador! Essa Avril eu botava no colinho. Sou um quase tio meio tarado. Sempre fui meio precoce ao contrário. Acabo hospedado num hotel de gays, na Visconde do Pirajá, em Ipanema, perto do Posto 9 e da Farme de Amoedo, a rua dos homossexuais no Rio de Janeiro. Cheguei tarde da noite, atravessei a Linha Vermelha sem ser assassinado e fui logo dormir para comemorar o fato de estar vivo. Bem, vi um pouco de tevê, mais especificamente o programa da Sue Jonhanson no GNT. Não sou ferro, não é? Agora o sol já está entrando pela minha janela e vou dar uma volta na praia. Antes, claro, vou ter o meu encontro diário com o Louro José e com a Ana Maria Brega-chique.
Li num blog (apesar de ser um péssimo internauta por conservadorismo e falta de saco para ficar clicando - a televisão tem a vantagem da telepizza: vem tudo pronto) que alguém propôs um programa exclusivo para o Louro José. Acho que teria patrocínio de uma marca de cerveja. A idéia era ótima, pois a gente teria o Louro sem a Brega. Só que, politicamente correto, o Louro nunca aceitaria ganhar dinheiro fazendo os outros encherem o cu de Brahma ou de outra marca qualquer. Louro só bebe vinho, defende o uso da camisinha e integrou a bancada parlamentar da Rede Globo na campanha contra o comércio legal de armas no Brasil. Enfim, o papagaio que toda mãe gostaria de ter como genro. Boa gente, o Louro. E sábio. Sempre mais.
Ligo a tevê. Tem algo errado acontecendo. Nossa, a Ana Maria está chorando. De verdade. Lágrimas reais na tevê. Que será que houve? Puxa, ela está mesmo desesperada! Será que o Louro aceitou o programa?
“Ela era a minha melhor amiga”, diz a loura.
Mais lágrimas. Fala da morta como de uma filhinha.
“Pensei até em não vir trabalhar.”
Soluços.
“Cheguei a mandar passar um programa gravado.”
Lágrimas e soluços.
“Morreu afogada...”
Engasga-se.
“...Na piscina.”
Compreendo a dimensão da sua tragédia pessoal. Fico emocionado. Há muito que não me sentia tão humano e tão capaz de empatia. Me deixo levar pelos sentimentos. Enfim, consigo, outra vez, me colocar no lugar de alguém e experimentar a sua dor. Rompo o casulo. Me transporto para junto de Ana Maria Braga. Num segundo, arrependo-me de todo o mal que já disse dela. Quase sinto orgulho de mim.
“Cleo já era parte de mim”, diz Ana Maria.
Não sei se Ana Maria tem filhos. Pela sua maneira de falar, em todo caso, parece se tratar de alguém que entrou para a sua família de outra maneira. Uma criança adotada? As lágrimas da apresentadora me fazem descobrir, por trás das plásticas e do silicone, uma natureza humana e sensível. Uma mulher como as outras. Chorona.
“Eu ficava horas falando com ela...”
Merda, acho que me enganei. Nem tudo é encenação na tal sociedade do espetáculo. A loura está mesmo abalada com a perda. Se não for filha adotiva, só pode ser uma sobrinha ou uma neta. Estou com um aperto no coração. Talvez isso me ensine a compreender melhor as coisas e a ser menos cínico. Quem sabe não é essa a resposta que venho buscar no Rio de Janeiro? Estarei encontrando o caminho, tendo a minha revelação? Por que a verdade não poderia vir da televisão? Não tem pregação evangélica na tevê? Deus pode falar através da tecnologia. Acho. Ao menos, pensando bem, não vejo inconveniente.
“Minha pobre cadelinha...”
Cadelinha?
Cachorra, uma vaca essa Ana Maria Brega! Quem morreu foi a sua cadelinha yorkshire.