A editora Pradense acaba de nos unir ainda mais.
Lançou o seu primeiro livro:
"O homem que fumava dois cigarros de uma só vez".

E relançou meu velho "A noite dos cabarés".

Ambos podem ser encontrados na Livraria Cultura.
É o cotidiano da exclusão que se reflete nesses dois livros.
Acrescentei este posfácio à nova edição:
Vinte anos esta Noite...
Nem posso acreditar, mas já se passaram 20 anos desde a primeira edição deste meu “A noite dos cabarés”. Ainda me lembro da emoção de ver o livro pronto. Ainda me recordo da construção minuciosa de cada reportagem – Cláudia, eu e o fotógrafo Paulo Dias andando pelos bordeis da cidade – e de cada lugar visitado com surpresa, deslumbramento ou choque. Nunca aprendi tanto sobre a capital gaúcha. Conheci as suas pensões, os seus cabarés, as suas ilusões e as suas desilusões. Conversei com alguns dos seus moradores de rua e ouvi belas histórias de alguns dos seus barbeiros e cabeleireiros. Eu era um jovem repórter e um estudante de antropologia impregnado de teorias. Queria captar a eternidade do cotidiano e agarrar o imaginário social do excluídos.
Já se vão 20 anos. Mais precisamente, 22 anos. Meus cabelos ficaram grisalhos e agora já branqueiam sem mais transição. Mudei de jornal, de cidade, de hábitos, de expectativas e de utopias. Já não sou mais boêmio. Andei pelo mundo e voltei. Mas toda vez que passo pelo Alto da Bronze ou pela frente de um velho prédio mal cuidado na Venâncio Aires, onde funcionava um modesto bordel e trabalhava o “Seu” Alberto, personagem que fascinou, penso naqueles anos, naqueles dias, naquelas horas passadas em contato com pessoas que pareciam saltar de páginas de livros ou de peças de Plínio Marcos. Eu queria ser o repórter antropólogo ou o antropólogo repórter. “A Noite dos Cabarés” é o meu diário de campo de uma expedição, uma viagem ao fundo da nossa noite. Faz pouco, reli meu livro. Não posso esconder certa pieguice. Emocionei-me. Foi um retorno a um tempo que não passa.
Esta nova edição pela Pradense veio acordar meus fantasmas, libertar meus monstros secretos, abrir a porta do túnel do tempo. Tudo parece ter mudado e tudo, paradoxalmente, parece igual. Continuo tentando agarrar o imaginário dos excluídos. O historiador, o sociólogo e o jornalista vivem unidos em mim na tentativa de capturar a eternidade do cotidiano. Os ecos do antropólogo que ficou pelo caminho ainda se fazem ouvir.
Nas noites das minhas memórias há sempre um cabaré, uma pensão, um bolero, um tango, um samba triste e mulher contando seu passado, seu presente e suas últimas esperanças nalgum tipo de futuro.
Este livro agora me parece um romance feito de reportagens, um documento informal sobre uma época vivida apaixonadamente por mim e serenamente pelos meus personagens, mesmo por aqueles que já tinham perdido tudo, nada esperavam e, mesmo assim, exalavam vontade de viver. Foi meu aprendizado das ruas. Porto Alegre mostra seus desvãos, suas zonas de sombra, seu lado b, suas esquinas, seus pardieiros, suas mitologias e suas fábulas. Gosto de saber que eu estava lá, que eu estive lá, que eu vi, vivi e contei um pouco daquilo que senti. Espero que os leitores de hoje descubram as emoções que tentei depositar em cada linha destas histórias tão impressionantemente singelas, únicas, singulares, universais. Que tempos curiosos. As reportagens deste livro saíram originalmente no jornal Zero Hora. O prefácio do meu livro foi feito por Luis Fernando Verissimo. Dá para ver que muita água rolou depois disso.