Juremir Machado da Silva

A obsessão por ter razão

Quando vale tudo para impor uma opinião

      Ainda não se inventou vacina para uma doença milenar e universal: a obsessão por ter razão. Quando dois lados opostos decidem ter razão, não há razão que os leve à razão. Em princípio, deveriam preponderar fatos e argumentos. Sabe-se, contudo, como prova o VAR, essa tecnologia usada no futebol para tirar dúvidas, que fatos acabam dependentes de interpretações, que produzem argumentos sob medida para as suas necessidades. Uma solução, como um medicamento para o sintoma, não para a causa, passa por listar as razões de um e de outro. Algo que se enuncia assim: A entende que, mas B, não sem razão, entende o contrário. É uma excelente maneira de não dar a razão e de ficar sem. Não estamos num mundo racional.

      A e B, pela primeira vez de acordo, dirão: “É sempre isso: A pensa que, B pensa que, muito chato”. Afinal, quem tem razão? O oposto também é problemático. O ódio é certo. Há quem escolha um lado e morra abraçado com ele mesmo quando este não tem razão. Essa doença, porém, não é só dos outros. Quem nunca teve um surto? Há casos em que só tem um jeito: abandonar. A vontade de ter razão produz fatos e argumentos. Conheci um sujeito que resolveu se libertar dessa praga. Na primeira discussão que teve declarou com todas as suas forças não ter razão:

– Como sabe disso? – provocou um oponente.

– Como não vou saber?

      A discussão alongou-se. O cara fez de tudo para provar que não tinha razão. Usou e abusou da retórica, de metáforas, de fatos velhos e novos, da hermenêutica, da psicanálise, da matemática e da arte.

– Tem razão – disse-lhe por fim o adversário, batido, esfalfado.

– Como?

– Admito, você tem razão.

– Não, não tenho.

– É isso que estou dizendo. Você tem razão ao dizer que não tem razão.

– Quem tem razão é você.

      Já se tentou tudo contra o surto de ter razão: sentar em barra de gelo, tomar banho frio, garantir que o Botafogo não cairá, olhar o programa do Datena sem achar patético, tomar cloroquina. Nada adiantou. A pessoa picada pelo “razionismo” não tolera indecisão. O seu inimigo número dois é o chamado isentão. O inimigo número um é quem queira ter razão no lugar dela. Acompanhei este diálogo:

– É impossível ser isento.

– Discordo.

O primeiro apresentou os seus argumentos. O outro cedeu:

– Tem razão.

– O senhor não poder dizer isso.

– Por que não?

– Porque seria isenção e isso não existe.

      Na era do negacionismo o que mais se pede é afirmação. O negacionista e o seu oposto são sentenciosos. Não duvidam. São contundentes. Não descansam. Preparam-se para as novas batalhas. Pensando nisso, para encerrar, o... Deixa pra lá. Você tem razão. Se bem que o seu oponente, bem refletido, também tem. Não digo que ele esteja certo, nem você. Garanto que ambos contribuem para a confusão. O negacionista sabe que não tem razão. Essa é a sua razão de ser.

A única saída é sentar e esperar o surto passar.