Juremir Machado da Silva

A polêmica do fusca continua (1)

A polêmica do fusca continua (1)

Prezado Juremir Machado da Silva,

Apresento meus comentários a seu peculiar artigo "Fusca nazista" e permaneço à sua disposição caso surjam dúvidas.
Seus leitores do Correio do Povo ai no Rio Grande do Sul devem estar um tanto atônitos e não é para menos...
O seu artigo foi uma brincadeira ou você estava falando sério???
Eu entendo que o Fusca merece respeito e sua história deve ser divulgada de modo correto, este é o trabalho que venho fazendo há uns 30 anos.

Saudações refrigeradas a ar
Alexander Gromow
São Paulo/SP


"Fusca nazista"




A Segunda Guerra Mundial acabou em 1945, e quem salvou o “Fusca nazista” foram as forças de ocupação inglesas, que não tem nada de nazista. Sem o dinheiro do povo alemão carreado para o projeto e a construção da fábrica do KdF o Fusca não teria saído do papel. Foi através da DAF – Deutsche Arbeits Front (Frente de Trabalho Alemã) que as contribuições dos trabalhadores acabaram carreadas para a GEZUVOR - Gesellschaft zur Vorbereitung des deutschen Volkswagens – ("Sociedade para Preparar o Volkswagen Alemão”) e proveram os recursos milionários para este projeto. Complicou? Pergunte por detalhes que eu explico direitinho...

Volkswagen


Muito da confusão em volta deste carro reside no nome e em peculiaridades da língua alemã, aliás como foi bem lembrado pelo amigo Bob Sharp (eu falo alemão então para mim esta distinção é automática). Os substantivos em alemão se escrevem iniciando por maiúscula, assim como os nomes próprios (você morou em Berlin – sabes falar alemão?)

Até o momento que a fábrica do Volkswagen alemão, depois da guerra, decidiu se chamar oficialmente Volkswagen Werke GmbH e o carro foi registrado com o nome de Volkswagen, este termo era só um substantivo- ai passou a ser também um nome próprio. Sendo assim o que o pessoal chamava de Volkswagen antes era um substantivo genérico que queria dizer carro popular. Depois o nome Volkswagen era também um nome próprio que queria dizer um certo modelo de automóvel fabricado pela Volkswagen GmbH (GmbH que dizer limitada).

É uma decepção atrás da outra. Como é que o Renato Rossi, que sabe tudo de carros, da Mesopotâmia aos nossos dias, não me avisou. Foi um choque. Abri a Folha de S. Paulo, na Internet, e li: "Para autor, sem Hitler não haveria Fusca". Quase desmaiei. Escureceu tudo. Minha pressão foi lá embaixo. Senti algo parecido com a perda da virgindade. Foi punk mesmo.


Acho bom deixar o Renato Rossi fora desta. Ele já está muito ocupado tratando do conteúdo editorial do caderno de “Carros e Motos” do jornal Correio do Povo, do Rio Grande do Sul, e com suas participações como comentarista do espaço Carros e Motos dentro do programa "Bom Dia" na Rádio Guaíba AM.

O que está ficando evidente é a sua total falta de cultura automotiva, e não venha descarregar no Fuqui, se você faltou na aula de história...

É totalmente verdade: “sem Hitler não haveria Fusca”, pois foi através da máquina do III Reich que o projeto foi viabilizado. Este projeto foi muito caro e empresa alguma teria fôlego para pagá-lo. Porsche tinha feito duas tentativas de desenvolver um carro popular antes desta, com a NSU e com Zündapp, ambas sem sucesso por falta de recursos.

Depois de uma lenta recuperação, prossegui a leitura: "Engenheiro Josef Ganz reconheceu em vida que ditador viabilizou seu projeto de carro popular, diz jornalista".


Há fortes controvérsias, meu caro Juremir. Há quem diga que o que o Paul Shilperoord escreveu não se sustenta à luz de uma análise científica mais apurada. Quem desenvolveu o “Volkswagen oficial do III Reich” foi Ferdinand Porsche e sua incrível equipe.

Josef Ganz foi somente mais um dos muitos engenheiros que trabalharam no desenvolvimento de carros pequenos na Europa dos anos 30 ( a diferença é que ele também foi jornalista), ele seguiu as influências do "Zeitgeist" da época. O fato de Ganz também ter “copiado” idéias de seus contemporâneos é de conhecimento de quem estuda a história e está repetidamente explicitado no próprio livro de Shilperoord. Sem esquecer que, como era comum na época, ele também foi processado por quebra de patentes de terceiros, assim como aconteceu com o próprio Porsche. Calma, para entender o contexto é necessário conhecer mais da história e num comentário destes não há espaço para ir mais a fundo, mas fico à disposição, se for o caso.

Como é que não liguei as coisas antes? Carro do povo, espírito do povo, Volks? Sou taipa mesmo. Busquei outro texto: "O livro ’’A Verdadeira História do Fusca’’ revela como Hitler tomou o projeto de um engenheiro judeu para construir um dos maiores sucessos da era nazista". Que filho da mãe esse Hitler!


E você engoliu esta bobagem?

Veja o que Dieter Landenberger, Chefe do Arquivo Histórico da Porsche, emitiu um longo comentário sobre este assunto do qual ressalto uma frase:

"Esta presunção de que um projetista de automóveis judeu reprimido politicamente, Josef Ganz, teve um papel preponderante a nosso ver não tem chance de passar por uma análise científica e é repelida por nós."

Possuo a interessante íntegra do posicionamento do Sr. Landberger, que traduzi para o português, e que está à sua disposição se você quiser receber uma cópia, traduzida é lógico.