A polêmica do fusca continua (2)
Posso conviver com patricinhas nazistas. Posso aceitar que os farrapos não tenham sido os heróis que cantamos em trova e verso. Não posso, contudo, aceitar sem sofrimento que o Fusca seja nazista. Pior, roubado de um judeu, Josef Ganz, por um nazista, Ferdinand Porsche, para a grandeza de Hitler. Por que esse Ferdinand não se contentou em produzir Porsche para o Adolf? Meu mundo caiu. Sempre pensei que o Fusca representava a genuína alma popular. Achava que o Fusca tinha vindo de baixo. Sou capaz de entender a paixão de Itamar Franco pelo Fusca. Hitler, ah, Hitler, não. Itamar sempre teve cara de Fusca, alma de Fusca, jeito de Fusca, fez governo de Fusca, tem vivido como um Fusca. Hitler foi um monstro. Sempre achei que monstros e Fuscas eram antagônicos.
Conta para mim, como é que você conseguiu escrever isto meu?
O Fusca foi um carro projetado para motorizar a Alemanha na vigência do III Reich. Um dos pontos de honra de Hitler era melhorar a relação de carros per capita da Alemanha, que estava muito aquém de muitos outros países naquela época.
O camarada (Hitler) era louco mesmo, queria que o carro custasse menos que 1000 Reich Mark (moeda da época na Alemanha), e começou a construir uma fabrica cuja produção final seria de 1,5 milhões de carros/ano – na verdade ia sobrar carro e faltar alemão para comprá-los.
Fez uma caderneta de poupança par o povo poder comprar o carro, mas em 1939 invadiu a Polônia iniciando a guerra. As vendas para uso civil só iniciaram em 1948, depois da guerra e depois das Forças de ocupação Inglesas terem salvo a fábrica da aniquilação final...
O Fusca passou a representar a alma popular por seu carisma e por sua presença em quase todo o mundo. Por onde ele passou trouxe progresso e felicidade para os povos, isto é inegável!
Foram dois golpes duros de uma só vez. O Fusca e as autobahns (estradas de alta velocidade). Ambos nazistas. Quando morei em Berlim, me apaixonei pelas autobahns. Queria viajar de carro, com amigos dirigindo, só para deslizar pelas autobahns. Nazistas, as vadias. Não tenho carro, não sei dirigir.
É só dirigir que tu não sabes, piá?
Morastes em Berlin e não aprendestes nada da história do Käfer, o que é que tu fizestes por lá, guri?
Então ouve esta: as Autobahns foram parte do vitorioso plano de Hitler para acabar com o desemprego do pós guerra (não sou adepto não, meu camarada, isto é uma constatação histórica que está em vários livros). Em tempo, antes que tu faças alguma confusão estou falando agora da Primeira Guerra Mundial que a Alemanha, para variar, também perdeu.
As obras foram feitas com o máximo de trabalho manual, para empregar o maior número possível de pessoas.
Mas as Autobahns ficaram prontas e vazias, pois não havia carros...
Daí a pressão para se ter um “Volkswagen”.
Na infância, porém, sonhei em ter um Jipe ou um Fusca. Queria o Jipe do Eliseu. O Eliseu era jovem, cabo da Brigada Militar e lindo. Morreu afogado em Santa Catarina. Quando seu corpo chegou em Livramento, todas as mulheres, dos 15 aos 80 anos, choravam como se tivessem ficado viúvas. Não sei o que fizeram do Jipe do Eliseu, que eu dirigia parado no galpão lá de casa. Esqueci o Jipe do Eliseu. Apaixonei-me por um Fusca cujo dono não conheci. Paixão platônica.
Esta ai talvez Freud explique...
Mas lá tenho minhas dúvidas, isto está cabeludo demais.
Creio que agora é definitivo: jamais aprenderei a dirigir. Nunca terei carro. Serei uma eterna viúva do Jipe do Eliseu e do Fusca, esse nazista enganador que apareceu na minha infância como uma promessa de liberdade.
Não se martirize e não culpe o Fusca por sua lacuna de cultura. O Fusca não tem como enganar ninguém, ele só fez prestar fiéis e bons serviços a milhões de pessoas pelo mundo.
O holandês Paul Schilperoord, autor desse livro sobre o Fusca, é meu algoz. Acaba de derrubar um dos meus maiores mitos. Não venham me dizer que já sabiam. Por que não me contaram?
Repito, não vás na Honda deste panfleteiro do Shilperoord. O tal livro até que serviria como uma biografia do Josef Ganz (muitas fotos de época e fofocas mil), mas quem é Josef Ganz??? Deste modo o livro não venderia. Mas tentando contar uma história da carochinha na qual um coitado de um judeu inventor do Fusca foi roubado por Hitler a coisa muda de figura, não é mesmo? A tal ponto de fazer você entrar em surto, ao que parece pelo que está ai escrito.
O livro de Shilperoord é considerado sensacionalista e não tem respaldo algum na Alemanha, por exemplo, pois ainda nem uma tradução para o alemão foi feita! Muito me surpreende que tenha sido feita uma tradução para o português do Brasil e logo pela afamada editora Alaúde.
Detesto ser o último a saber. Cheguei a apoiar o projeto de Itamar de relançamento do Fusca. Ah, se eu soubesse. Fusca, nunca mais. Perdi a inocência. A vida é dura. Nossos ídolos possuem pés de barro. O tempo passa, nossas ilusões desmoronam. Hitler e o Fusca!? Foi demais para mim.
Saber é uma arte, para saber é necessário se informar, ou seja, no popular – estudar, e de preferência em fontes fidedignas.
Ser o último a saber mais parece conversa do marido traído. Não de artigo sobre o Fusca.
Pode ser que os seus ídolos tenham pés de barro. O meu, o Fusca, pode ter os pneus no barro de vez em quando e é ai que ele mostra a que veio.
Que tal entender que Hitler foi somente um meio para que a humanidade pudesse ter o Fusca. Na verdade se Hitler queria o mal, o Fusca acabou sendo o seu castigo, pois o Fusca representa o bem.
Ficar com “dor de corno” em função da história pregressa do Fusca é mais um engano bravo, sai desta e vem para o lado do bem.
Leia um pouco, mas procure coisa boa, que sabe o meu livro possa ser um bom começo...
Comentário final:
Uma das coisas que me entristece é gente de imprensa fazendo um desserviço em matéria de Fusca.
Já basta a malta que falou mal do carro em 1993, quando o Itamar decidiu que ele deveria ressurgir das cinzas...
Caro Juremir, se sobraram dúvidas fale comigo, tentarei responder.
Saudações refrigeradas a ar
Alexander Gromow
a.gromow@hotmail.com