A polêmica dos livros com erros de concordância
Liberou geral?
Língua é convenção. O certo pode tornar-se errado. O mais comum é o contrário. Certas palavras até trocam de sexo. E não só agora que o STF está mais aberto. Soja virou feminino. O Ministério da Educação, porém, meteu o pé na porta da escola. Legitimou livros didáticos que autorizam erros de concordância. Tudo para valorizar as formas populares de falar e de escrever e para combater o “preconceito linguístico”. Vejam que “linguístico” até pouco tempo era “lingüístico”. Com trema. O pobre do trema, tão útil e fácil de aplicar, foi condenado à morte, eliminado, segundo alguns, porque, ainda na época das máquinas de escrever, causava muitos problemas para as secretárias portuguesas. O Brasil foi na onda. O certo e útil tornou-se errado. Coisa do (ou de?) português.
É sempre bom complicar. Aquilo que é errado numa língua pode ser correto em outra. As línguas não são lógicas. Mudam com o passar do tempo, com o uso e com a criatividade dos seus usuários. O erro de pronúncia é campeão de criação de novas palavras. Forró está aí para provar isso. Em português, “mais grande” está errado. Em francês, “plus grand” está na regra. Em português, dizer “essas casa bonita” é muito feio. Em francês, “ces maisons jolies” e “cette maison jolie” têm a mesma pronúncia na parte final. Come-se a letra esse do plural. Nesse sentido, o francês culto fala como um brasileiro analfabeto ou quase. Mas, que eu saiba, nenhum livro didático francês autoriza erros de concordância. Pois é.
É verdade também que ninguém fala totalmente certo. Nem os gramáticos. Salvo os muito chatos. No coloquial, aplicamos certos pronomes com muita liberdade. Ou nem os aplicamos. Abandonamos a mesóclise. Ninguém diz “esforçar-nos-emos”. Especula-se que a mesóclise teria caído em desuso com a renúncia de Jânio Quadros. Uma mulher que use mesóclise denuncia a sua idade: 150 anos. Ninguém fala tampouco “casei-me em 1989”. A escrita, porém, parece-nos sagrada e nela não podemos aceitar erros cometidos oralmente. Por que mesmo não começar uma frase ou um parágrafo com “me casei em 1989”? A gramática não deixa. Até quando? O Rio Grande do Sul ainda vai consagrar o “tu foi”. Em filmes como os da Casa de Cinema, os personagens falam “tu foi” para que não soem falsos dizendo um pedante “tu foste” ou um errado “tu fostes”, o qual, volta e meia, salta de alguns lábios.
Longe de mim fazer a apologia do erro, embora alguns leitores apressados, desses que jamais captam a sutileza das coisas e já saem denunciando horrores, venham certamente a me acusar disso, mas temo que algumas guerras estejam perdidas. A mesóclise morreu. A ênclise (colocação no pronome oblíquo átono depois do verbo) está agonizando. As línguas são como tudo na vida. Há quase sempre perdas e ganhos. O princípio maior é o da economia: busca-se dizer mais com menos. Não conheço uma só pessoa “normal” que saiba a diferença entre “por que” e por quê” (por que as línguas mudam? As línguas mudam por quê?). Frase pomposa para terminar: a língua é um sistema de hierarquia social. Como o gosto. E o sexo.