Juremir Machado da Silva

A república das empreiteiras

É  sabido que os negócios se dividem em muitas categorias, assim como os homens podem ser classificados em altos, baixos, bebedores de cerveja e que leem o jornal no banheiro. As duas principais tipologias de negócios são lícitos e ilícitos.

Cada uma delas se subdivide em rentáveis e que dão prejuízo. Ambas também podem ser separadas em com risco, com muito risco e sem risco algum. Outra classificação é esta: negócios com o Estado (rentáveis com risco, rentáveis sem risco, rentáveis com muito risco, que dão prejuízo sem risco, que dão prejuízo com muito risco) e negócios sem a participação do Estado (sem interesse pela baixa rentabilidade ou pela falta de propina). Uma categoria muito especial afirmou-se nos últimos anos: negócios do Estado com empreiteiras. É sempre rentável. Inicialmente não havia risco algum. Era perfeito. Já não é mais.

Os negócios –– assim como as mulheres, que se dividem entre altas, baixas, magras, king size, que cortam e pintam o cabelo depois de certa idade e que cortam, mas não pintam o cabelo depois de certa idade –– podem ser resumidos em duas grandes categorias: bons para todo mundo e ruins para o Estado; bons para alguns e péssimos para o Estado. Os negócios entre partidos políticos e empreiteiras eram considerados perfeitos por serem “bons para todo mundo” e péssimos para o Estado ou para suas empresas.

Os partidos ganhavam dinheiro para as suas campanhas, os seus operadores embolsavam milhões para fazer o que bem entendessem, as empresas faturavam contratos extraordinários e o contribuinte, sem saber, pagava a gorda conta.

É evidente que os negócios tidos por bons para todo mundo sempre eram bons apenas para alguns e péssimos para o Estado. O que deu errado para os negociantes? A justiça e a polícia resolveram discutir essa relação tão perfeita. Tem uma nova categoria: negócios bons para alguns, péssimos para o Estado, mas com alto risco de interferência policial. No momento em que executivos de empreiteiras são convidados a dormir na cadeia, o negócio deixa de ser “bom para todo mundo”.

Os políticos tentam sair pelo ladrão. Mas o ladrão não aceita morrer sozinho. Bota a boca no megafone.

Usa a delação premiada como um negócio bom para ele e muito bom para o Estado.

A China apostou no capitalismo autoritário de Estado. A mão de obra fica mais barata. Cuba vive no socialismo de parque temático anacrônico. Não é muito rentável. Mas não tem mais risco. O Brasil investiu no capitalismo da propina, associando empreiteiras, pluripartidarismo e lavagem de dinheiro por meio de doações “lícitas” para campanhas políticas. Merece prêmio de criatividade. Nunca se tinha lavado dinheiro com selo do Tribunal Superior Eleitoral. O importante é ter um comportamento republicano. A república, como os negócios, tem as suas categorias. Existem repúblicas que fazem jus ao nome e repúblicas que precisam de tradução. No Brasil, sempre original, entramos na era da república das empreiteiras. Tudo pela coisa pública.

Quem dela consegue se apropriar sem correr riscos.

As empreiteiras são as empresas da era padrão Fifa.