O Episódio da Legalidade
1. Em 25 de agosto de 1961 a Base Aérea de Canoas (BACO) entrou em regime de prontidão.
2. Em 26 de agosto do mesmo ano a tropa da BACO (suboficiais, sargentos, cabos e soldados) tinha pouco conhecimento dos acontecimentos, mas já havia o boato de que os Ministros Militares estavam se opondo à posse do vice-presidente João Goulart e que o governador Leonel Brizola havia iniciado um movimento pela posse de Jango, denunciando o golpe militar. Era o Movimento Pela Legalidade.
3. No dia seguinte, 27 de agosto, houve um alarme de que Brizola iria tentar tomar a Base Aérea, usando uma tropa vinda de Nonoai e os ferroviários, com apoio do 3º Exército. Toda a Base entrou em forte preparativo para a defesa: todo o pessoal foi armado e municiado; o 1º/14º Grupo de Aviação foi preparado – 16 aviões (quatro esquadrilhas) Gloster Meteor F8, armados e municiados com metralhadoras, canhões e bombas.
4. A BACO tinha um Douglas C-47 para 28 passageiros, do qual eu era o mecânico de voo encarregado. Outros quatro C-47 chegaram à Base para transporte de pessoal e material.
5. Na noite do dia 27 alguém deixou disparar uma arma – um disparo acidental.
6. Em 28 de agosto, pela manhã, devido ao disparo acidental, todos receberam ordens de guardar suas armas; nós, sargentos, guardamos as armas em nossos armários.
7. Na Esquadrilha de Adestramento, onde eu trabalhava, o comandante, Capitão Silva Maia, dividiu o pessoal em grupos para irem a suas casas dar notícias e apoio aos familiares.
8. Fui em casa, na Rua Hoffmann, 167, em Porto Alegre. Chegando ao apartamento, minha esposa perguntou “é mesmo que a Base vai atacar o Palácio?”, ao que respondi “não sei nada a respeito disso, que história é essa?”. Ela me disse que o governador estava dizendo aquilo no rádio. Na verdade, estava sendo transmitida, repetidamente, a notícia do ataque ao Palácio Piratini, com Brizola fazendo um dramático pronunciamento, através do qual convocava o povo para ir à Praça da Matriz. Pedi que minha esposa desligasse o rádio, que aquilo tudo era bobagem, afinal estava vindo da Base, onde nada havia!
9. Fui ao bar que ficava ao lado de nosso prédio. Quando cheguei à porta, vi que lá estava cheio de homens escutando rádio. Quando me viram fardado, abriram um corredor. Fui até o balcão no fundo do bar e, quando virei para sair, fui impedido pelo grupo que, de maneira ameaçadora, perguntava se nós íamos atacar o Palácio. Sentindo-me ameaçado, respondi com veemência que aquilo era um absurdo, indagando os frequentadores se pensavam que a Base Aérea era um bando de loucos, irresponsáveis. Disse que o governador estava puxando brasa para o seu assado, que tinha acabado de vir da Base, onde nada havia nesse sentido. Forcei passagem e saí xingando, “esse Brizola, incitando o povo contra a Aeronáutica, que abuso!”.
10. Voltei para a Base Aérea. Lá chegando, encontrei o pessoal em forma, em frente ao prédio do comando, enquanto o Comandante, Cel. Honório Pinto Magalhães, falava. Entrei em forma e fiquei sabendo, por colegas, que havia um alarme de que a Base havia recebido ordens para atacar Porto Alegre, o Palácio e calar o Brizola.
11. O Cel. Honório estava em uma parte mais alta, caminhando de um lado para o outro, com um papel cor-de-rosa na mão (creio que era a ordem recebida). Dizia que o Brigadeiro não ia cumprir a ordem, nem ele. Eu estava incrédulo, não me contive e perguntei ao Cel. qual era a posição da 5ª Zona no conflito: se estava do lado dos Ministros, ou do lado do governador – já apoiado pelo 3º Exército (General Machado Lopes) – ou, ainda, se ficaria neutra. A resposta do Coronel foi que a 5ª Zona Aérea continuava obedecendo à cadeia de comando.
12. Não entendi aquilo, era uma incoerência. Como poderia obedecer à cadeia de comando e não cumprir a ordem?
13. O Cel. dispensou a tropa; saí com alguns colegas rumo à Esquadrilha de Adestramento, que ficava ao lado do hangar do 1º/14º GAV.
14. Passando em frente ao hangar – porta sul – encontramos um grupo de sargentos que observava o seu interior, onde o pessoal subalterno (suboficiais, sargentos, cabos e soldados) encontrava-se em forma, desarmado, cercado pelos oficiais, estes todos armados, enquanto o comandante do Esquadrão (1º/14º GAV) falava ameaçadoramente, tentando convencer a tropa a largar os aviões para o céu e embarcar nos aviões C-47, rumo a São Paulo. O pessoal se recusava a obedecer. O clima estava muito tenso.
15. Rapidamente, resolvemos nos armar e voltar para equilibrar o jogo. Voltamos e paramos em frente à porta sul novamente, agora todos armados. O Major Peixoto veio e ordenou que nos retirássemos do local; como não obedecemos, Peixoto foi ao hangar e voltou com o Major Cassiano, que também mandou que nos retirássemos: que fôssemos para nossas unidades! Não obedecemos.
16. Fui até a Esquadrilha, que ficava ao lado. Quando voltei para o hangar, vi o Brigadeiro conversando com um grupo de oficiais em frente ao local. Fiquei aliviado. Pensei, “bem, agora o Brigadeiro bota ordem nesta confusão”. O Brigadeiro se retirou e o Major Cassiano dispensou o pessoal do Esquadrão.
17. O pessoal do Esquadrão se reuniu com o pessoal das outras unidades e foi resolvido neutralizar o Esquadrão e a própria Base Aérea, da seguinte forma:
a. Todos foram em busca das armas; nesse particular, o Suboficial Tomazoli foi incansável.
b. O pessoal do armamento neutralizou (deu pane) os sistemas bélicos dos aviões.
c. Os mecânicos esvaziaram um pouco os pneus.
d. Foram colocados obstáculos na pista de decolagem, a fim de neutralizá-la. Para tal, creio que foram usados os caminhões do Corpo de Bombeiros da Base.
e. Os Sargentos da Cia. de Guardas informaram os soldados do que se passava. Os soldados se uniram conosco, foram armados e ficaram sob o comando dos seus graduados.
18. Do lado oeste do hangar do Esquadrão e dos alojamentos da Esquadrilha de Adestramento há uma mata de eucaliptos. Em frente ao hangar, à Esquadrilha e à mata fica a pista de estacionamento, onde estavam todos os aviões: dezesseis Gloster Meteor F8, alguns NAs, alguns Douglas C-45 e cinco Douglas C-47. Instalamos nossa tropa revoltosa na mata de eucaliptos e lá ficamos de prontidão. Ninguém poderia se aproximar dos aviões sem que víssemos.
19. Os oficiais tomaram posição no hangar do Esquadrão.
20. Ao anoitecer, o Sgto. Crispim e o Sgto. Simões Pires foram caminhando na pista de estacionamento, em frente aos aviões, quando foram surpreendidos, na frente do hangar, por alguns oficiais que os dominaram. Os oficiais gritavam para nos rendermos, enquanto o Crispim gritava “deixem nos matar, mas não deixem decolar!”. O suboficial Leomar e eu avançamos dos eucaliptos, agachados atrás de uma cerca-viva, e nos aproximamos da cena. Então gritei, “larguem os sargentos e abandonem a pista ou mandamos bala!” – nós não pretendíamos atirar, era só um blefe para assustar os oficiais. Mas para nossa surpresa, um grupo de sargentos e soldados havia nos acompanhado, e estava atrás de nós. Os integrantes desse grupo manejaram suas armas (creio que umas doze armas foram manejadas), e a estralada dos ferrolhos retumbou na mata, fazendo parecer que muitas armas haviam sido manejadas. Até nós nos assustamos! O Suboficial Leomar agiu rápido, mandando que não atirassem, e que desarmassem as armas. Os oficiais, que também estavam blefando – não pretendiam matar ninguém –, largaram os sargentos e voltaram para o hangar.
21. A essas alturas, julgando que a situação havia ficado muito perigosa, os suboficiais e sargentos resolveram mandar um grupo para falar com o governador e com o General Machado Lopes, pedindo que oficiais do Exército assumissem o controle da Base, evitando um possível confronto entre os oficiais e a tropa. O grupo escolhido foi: Suboficial Moacyr Paluskeivski; Sargentos Álvaro Moreira de Oliveira Filho, Ney de Moura Calixto (primo do governador) e Golbery Dias (sobrinho do General Golbery).
22. Fiquei sabendo que, após o grupo de suboficiais e sargentos ter sido recebido pelo General Machado Lopes e o problema devidamente debatido, o General resolveu mandar a Tropa de Quaraí, que estava acantonada no Parque Farroupilha para o desfile de 7 de Setembro, à Base Aérea, para dar apoio, pedindo ao grupo que apontasse um oficial para assumir o comando da Base com o apoio do Comandante da Tropa do Exército, ao que o grupo sugeriu o nome do Major Mário Oliveira (da Aeronáutica), que foi aceito pelo General.
23. No dia 29 de agosto, por volta das quatro horas da manhã, chegou à Base a Tropa do Exército, sob o comando do Major do Exército Léo Etchegoyen, mais o Capitão Canavó e dois aspirantes a Oficial.
24. Toda a Tropa da Base entrou em forma em frente ao alojamento da Cia. de Guarda e ali recebeu o Major Etchegoyen. O Sub Felipe, por ser o militar mais antigo da Base, conversou com o Major. Depois de ouvir Felipe, o Major nos aconselhou que nos desarmássemos, para diminuir a tensão existente. Disse que ele, junto com a Tropa do Exército, controlaria a situação. Concordamos, uma vez que o Major estava ali representando o General Machado Lopes, a essa altura o Comandante Militar da Legalidade.
25. O Major Etchegoyen foi para o prédio do Comando, onde estavam os oficiais.
26. A Tropa do Exército entrou e ocupou um campo em frente ao prédio do Comando, comandados pelo Capitão Canavó.
27. A Tropa da Base guardou as armas. Como já eram quase 8 horas da manhã, todos foram para o rancho tomar o café da manhã. Após o café, voltamos para os alojamentos, no centro da Base, próximos ao prédio do Comando.
28. Recebemos ordens do Major Mário Oliveira para entrarmos em forma em frente ao prédio do Comando. Após entrarmos em forma (éramos cerca de 250 sargentos), constatamos que a Tropa do Exército, às nossas costas, havia estendido linha de combate, com metralhadoras. Naquele momento, ficamos sem entender nada; julgamos que o 3º Exército havia passado para o lado dos Ministros Militares. Nada podia ser feito: nosso protesto já estava mais que lançado. Ficamos quietos.
29. Os oficiais, em bom número, apareceram. Foi dito que aqueles que não haviam participado da revolta poderiam sair da formação. Fiquei preocupado, temendo que muitos não aguentassem a pressão. Porém, a atitude da nossa Tropa me encheu de orgulho, apenas uns cinco saíram de forma, talvez porque realmente não tivessem participado, afinal tenho certeza de que aqueles que saíram eram homens valentes.
30. Os oficiais circularam armados entre os sargentos e os suboficiais, tentando amedronta-los. Todavia, se deram mal – a Tropa, mesmo sob ameaça de metralhadoras, sustentou a posição tomada a favor da Legalidade e da não agressão a Porto Alegre.
31. A Tropa ficou em forma por várias horas, enquanto os oficiais, auxiliados por cabos, soldados e talvez pelos próprios sargentos que haviam saído da formação, retiraram as bombas dos aviões e prepararam as aeronaves para decolar.
32. Os dezesseis aviões Gloster Meteor F8 decolaram, subiram ao céu, e de lá, um a um, mergulharam e passaram num voo rasante por sobre a cabeça da Tropa em forma. Uma verdadeira afronta, uma agressão tamanha, mas a Tropa permaneceu firme. Mais uma vez me orgulhei dos colegas, ao passo que os oficiais, amparados nesse ato de traição do Major Léo Etchegoyen, voaram para São Paulo, levando o 1º/14º GAV.
33. Após a decolagem dos aviões, fomos conduzidos presos para os alojamentos da Companhia de Guarda da Base, escoltados pela Tropa do Exército.
34. No dia 30 de agosto permanecemos presos. Ficamos sabendo que um Coronel do Exército veio à Base e levou embora, em sua companhia, o Major Etchegoyen.
35. O Suboficial Arnaldo Francisco Renz, do Q.G. da 5ª Zona Aérea, veio à Base e tomou conhecimento dos fatos. Voltou para o Q.G., informou aos suboficiais e sargentos o que se passava, ao que decidiram tomar o Q.G.
36. Uma vez tomado o Quartel General, os oficiais e o próprio Brigadeiro Comandante da 5ª Zona Aérea, João Aureliano Passos, debandaram para o Rio de Janeiro e para São Paulo.
37. O Cel. Alfeu Monteiro assumiu o comando da 5ª Zona Aérea. Foi à Base e, após conversar com o Major Mário Oliveira, que estava no comando, soltaram os suboficiais e os sargentos. A Tropa do Exército deixou a Base, e desta maneira o Major Mário, em conjunto com a Tropa da Base, assumiu total controle da situação.
38. No dia primeiro de setembro, nova tensão tomou conta da Base. O Tenente Avelino Yost ficou de Oficial de Dia, e eu estava escalado como Mecânico de Dia. Durante o dia ficamos sabendo que o Corpo de Paraquedistas tinha recebido ordens de tomar a BACO. À tardinha, o Major Mário Oliveira reuniu a Tropa e comunicou o possível ataque dos Paraquedistas, que deveria acontecer ao amanhecer. Ele nos disse que a ordem era para defender a Base a qualquer preço. A Tropa foi armada e municiada, sendo, em seguida, distribuída por setores de defesa. Passamos uma noite extremamente tensa, mas graças ao bom Deus o Corpo de Paraquedistas não veio.
39. O vice-presidente João Goulart regressou ao Brasil. Houve um acordo entre as forças em conflito, e no dia 7 de setembro Jango assumiu a Presidência da República e a paz voltou a reinar, ao menos provisoriamente.
40. Tudo parecia ter voltado ao normal, mas as perseguições começaram. Os oficiais que haviam ido para o Rio e para São Paulo impuseram a condição de que somente regressariam se os 7suboficiais e sargentos que tinham sido os cabeças da rebelião fossem retirados da Base. Esses “cabeças” revoltosos foram nomeados pelos oficiais: era um grupo de quatorze, posteriormente chamado de “Grupo 14 Bis”. Dentre eles estavam: Suboficiais Felipe e Tomazzoli; Sargentos Álvaro, Fernando Azor, Melquisedec, Simões Pires, Klein, Alvim, Crispim, Silvio Palma e Arnaldo, além de dois Cabos e um Soldado, cujos nomes não me recordo.
41. O grupo foi transferido para o Destacamento de Santa Maria – RS. Apenas o Suboficial Felipe
ficou no Quartel General da 5ª Zona Aérea, em consideração à sua idade.
Porto Alegre, 12 de agosto de 2011
Melquisedec A.L. Medeiros – Capitão Reformado da Aeronáutica
Nota: era sargento da Aeronáutica, servindo na BACO, em 1961 e foi caçado por Ato Institucional em 1964.