Juremir Machado da Silva

A saga de Aristides de 2001 a 2011

Sobre a mesa da sala, um velho livro de Ciro Martins deixado por um sobrinho. No canto oposto ao da janela, a televisão.

Lá fora, campos a perder de vista. Aristides fitou a vastidão da campanha e comoveu-se. A noite desceu tranqüila.

Enfim, 2001 apagava-se. Ano difícil. Na TV, uma retrospectiva dos acontecimentos mais importantes dos últimos 12 meses dividia espaço com mensagens de paz e de Feliz Ano Novo!

Aristides nunca fora de grandes comemorações. Mas nunca esquecia de festejar o que de bom tinha vivido e, principalmente, a certeza de um futuro melhor. Houve tempos em que, por falta de energia elétrica no campo, não podia ver o mundo resumido em um programa de televisão. Agora, graças ao progresso, assistia ao desfile das catástrofes de 2001.

Viu mais uma vez o desabamento das torres do World Trade Center.

Chocou-se.

Eta, mundo velho sem porteiras! – exclamou.

Sempre se chocava.

O apresentador repetia: “Em 11 de setembro de 2001 o mundo mudou para sempre”. Depois vieram novamente as imagens dos bombardeios ao Afeganistão e dos conflitos entre palestinos e israelenses.

Nos intervalos, vibrantes apelos à paz e ao entendimento entre os homens de boa vontade. O programa dedicou um bloco às cartas com antraz. E outro ao crescimento do número de seqüestros no Brasil. Acontecera a democratização desse tipo de crime. Qualquer um, pobre ou rico, anônimo ou famoso, podia ser seqüestrado.

O horror ao alcance de todos, a qualquer preço.

Inquieto, Aristides saiu para o pátio. Foi tomar uma golfada de ar puro. As estrelas pareciam brilhar justo um pouco acima da sua cabeça. Amava aquele lugar como um pedaço de si mesmo.

O pampa fazia parte das suas entranhas. Conhecia cada poro daquele vasto corpo estendido. Gostava de deslizar lentamente as mãos nos recantos menos visíveis daquela terra feita para brotar.

Na vida, Aristides fora peão. Não sabia mandar. Porém, sentia prazer em obedecer às ordens da natureza.

Cada estação tem o seu galope e as suas manhas, dizia.

Voltou para a sala.

Na televisão, sobre cada assunto, seguia-se o mesmo conselho: estancar os conflitos para abrir espaço às negociações.

Os palestinos deviam parar o terrorismo para que a comunidade internacional os ajudasse a dialogar com Israel.

Os argentinos deviam parar as greves para que o governo viesse a discutir com os insatisfeitos.

O MST devia parar as ocupações para que as autoridades implementassem a reforma agrária.

Aristides coçou o queixo: era a primeira vez que se dava conta daquela estranha coincidência. Pareceu-lhe até uma matreirice de gente grande.

A noite avançava. Mais algumas horas e 2002 sepultaria um infeliz ano velho. Estava sozinho. Pensou na infância e nas colheitas, na juventude e nas lides do campo, no amor e nos amigos. Tudo ali era tão simples e, ao mesmo tempo, cada vez mais complicado.

Por quê?

Por causa de quem?

A quem servia que os homens não pudessem mais subsistir com o que podiam arrancar da própria terra? Não sabia.

Era apenas um homem muito simples.

No dia seguinte, partiria para a cidade, encontrar a mulher e os filhos. Começaria vida nova. Encontraria emprego. Viveria em paz, como pregava a televisão, teria direitos (não havia entendido bem a tal flexibilização da CLT) e confortos garantidos.

Tinha demorado a convencer-se.

Agora já não podia duvidar de mais nada. Distraído, folheou o esquecido livro de Ciro Martins. Passou os olhos numa frase.

Desistiu.

Antes de dormir, ouviu um pronunciamento do presidente da República. Soube que tudo estava muito melhor no Brasil do novo milênio. Achou que estava meio doido.

Quando o presidente desfiava o seu rosário de realizações, entusiasmava-se. Quando os políticos da oposição desenrolavam as suas críticas, ficava assustado. Afinal, quem falava a verdade?

Achou que era a televisão.

Não se ia mentir assim na cara e na casa de todo mundo.

Dormiu mais aliviado.

Amanheceu. 1º de janeiro de 2002.

O sol banhou a pradaria. Aristides tomou o rumo da estrada. A campanha e a sua vida ficavam para trás. Não sabia que um dia se tornaria um número numa estatística com um nome pomposo: êxodo rural. Em pleno futuro, era apenas uma vítima do passado.

Não sabia nada disso. Uma frase pega aos pedaços não lhe saía da cabeça: “Que paz naqueles campos!”

*

28 de dezembro de 2011.

Aristides mora numa favela.

Espera ser beneficiado pelo Minha Casa, Minha Vida.

Olha uma retrospectiva na televisão.

O apresentador fala da Primaverá Árabe.

De novos assentamentos em Jerusalém Oriental.

Da retirada dos Estados Unidos do Iraque.

Da execução de Muamar Kadhafi.

Das retaliações ocidentais ao programa nuclear do Irã.

Do total de mortos na Síria.

Da morte do ditador da Coreia do Norte.

Dos 10 anos de 11 de setembro de 2011.

Solenemente o apresentador repetiu:

- O mundo nunca mais seria o mesmo depois de 2001.

- Eta, mundo velho sem porteiras - exclamou Aristides.

E desligou a televisão.