Juremir Machado da Silva

A supersticiosa ética do escritor

Escrever para que e para quem?

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 Um dos textos mais interessantes do argentino Borges, talvez o maior escritor do século XX, chama-se “A supersticiosa ética do leitor” e faz parte do livro “Discussões”. Nesse artigo de três páginas, publicado em 1932, Borges detona alguns dos mitos literários do seu tempo. Um deles, certamente o mais forte, sustentava que todo escritor deve ter um “estilo”. Entendia-se por “estilo” uma forma retorcida capaz de se afastar da limpidez da linguagem cotidiana, o que alguns teóricos chamam ainda hoje de “adensamento” da escrita.

      Irônico e contundente, Borges esculhambou a “charlatanice da brevidade” e as “tecnequerias” da palavra. Ridicularizou alguns clichês que até hoje resistem: uma página só seria boa se juntasse de modo surpreendente adjetivos e substantivos. A proximidade de algumas sílabas em prosa seria cacofonia, mas criatividade em poesia. A emoção deveria se submeter à ética ou a uma etiqueta formal. Todo leitor funcionaria como um crítico denunciando repetições de palavras e falta de densidade narrativa. Cervantes não teria estilo. D. Quixote pecaria por muitas partes frouxas e descosturadas. Teria pouco colorido, insegurança estrutural e parágrafos mal construídos. Uma “prosa de sobremesa”. Borges supõe que, levando-se a sério essa matriz estética, o mesmo valeria para Dostoievski, Montaigne e Samuel Butler. 

      Tudo isso, diz o argentino, em nome da grande vaidade da perfeição. Jamais alcançada. O fetiche do “escritor métrico” é “cinzelar” a frase que o imortalizaria. Nesse sentido, para ficar nos pagos, Aureliano de Figueiredo Pinto, que é bom, seria sempre melhor do que Ciro Martins, que busca antes de tudo contar uma história. A “página perfeita” costuma ser tão chata quanto boa parte das obras modernistas que provocaram escândalos e morreram com seus autores, salvo pela adoração póstuma ao modernismo, que pretendia mudar tudo, salvo a si mesmo. Como se sabe, o herético luta para ser canônico.

      Para Borges, o mandamento do artista deve ser outro: “A paixão do tema tratado manda no escritor”. Eis tudo. Mais: “A aspereza de uma frase é tão indiferente à genuína literatura quanto a suavidade”. A forma, que pode e deve ser bela e eficaz, é instrumento. No Brasil, o sonho de ser o novo Guimarães Rosa, que era maravilhoso, continua a produzir livros insuportáveis quase sempre premiados. Um livro está mais perto de um prêmio quanto mais “estiloso” e obscuro for. Borges chutou o pau da tenda: “A economia prosódica não é menos estranha à arte do que a caligrafia, a ortografia ou a pontuação”. Alguns livros endeusados pelos pares atualmente poderiam ser rotulados de “exercícios de formalismo cinzelado”. Palavrório enfático, diria Borges, simulando sabedorias e perfeições impossíveis. Borges queria uma literatura capaz de comunicar experiências, não apenas sons.

      Se esse modelo adestrou o leitor daquela época, agora seria o caso de falar da “supersticiosa ética do escritor”, especialmente do brasileiro. Ele também pratica a mística da junção inusitada entre adjetivo e substantivo, o tabu da repetição de palavras, o horror a qualquer eco silábico e a crença na forma como superior ao conteúdo. O adensamento (obscurecimento) da linguagem é a sua meta. Inventar outra língua é a utopia de quase todo autor. O maior mito atual, contudo, é outro: a ideia de que o escritor deve deixar algo para o leitor completar. Interessante é que essa lógica não se revela em prosas límpidas, com histórias estruturadas, como as de Graham Greene, um dos maiores narradores de todos os tempos em minha modestíssima opinião, Scott Fitzgerald e Hemingway. O que há para completar em “O sol também se levanta”? Em “Suave é a noite”? Em “O poder e a glória”? Não sei.

      Vivemos uma época de ênfase na literatura de “depoimento”. Mesmo a ficção para ser legitimada precisa que o autor tenha um “lugar de fala” especial, como se devesse existir necessariamente uma correspondência entre autor e personagem, narrador e narrado. Antes disso, cada autor inventava mundos e seres, homens, mulheres, brancos, negros, gays, etc, sem se limitar aos seus dados biográficos. Balzac, como se diz, concorreu com os cartórios do seu tempo. Jorge Amado inventou personagens de todos os gêneros e “raças”. Flaubert (“Madame Bovary sou eu”) não temia ser uma mylher. O talento consistia em ser verossímil não sendo justamente o personagem criado pela empatia.

      A poesia de Pablo Neruda podia ser vigorosa e polissêmica. Descobria (destapava, desocultava) sentidos, sem jamais os esgotar. Agora, de certo modo, defende-se uma poesia tão constrangida que só pode sussurrar para não ser acusada de grandiloquência. O sentido é menosprezado. Só os sons e os mistérios parecem importar. Borges terminou o seu texto sobre a “supersticiosa ética do leitor” falando dessa capacidade de certa literatura de apaixonar-se pela sua dissolução e de cortejar o próprio fim. O principal suspeito ainda volta à cena do crime: é o escritor em busca frase esculpida a cinzel.