Novo mundo
Deverá ser bem antes.
Mas 2100 é uma data segura para as previsões que farei aqui. Nada da minha cabeça. Tudo o que cientistas sinalizam. Como será o mundo dentro de 82 anos? Simples: não haverá mais carros particulares nas ruas das cidades. Nem sequer movidos a eletricidade. Combustíveis fósseis em países avançados não passarão de 2050. O transporte público gratuito se imporá. As ruas voltarão a ser mais silenciosas e apartamentos térreos subirão de valor pelos pátios. Adeus aos engarrafamentos, salvo, talvez, de drones nos céus, à poluição sonora e de gazes tóxicos, adeus aos acidentes de trânsito. O motorista é uma categoria com os anos contados. Espécie em extinção.
O capitalismo passará por intensa mutação. A maior da sua conturbada história. Não será atacado por uma nova onda de comunismo, mas pela evolução científica. Toda a sua lógica atual enfrentará um vírus inexorável. Viveremos o pós-trabalho. Máquinas farão praticamente tudo o que hoje é executado por humanos, do jornalismo à advocacia. Ao menos, em grande parte da coleta e preparação de dados. Cada pessoa receberá do Estado uma quantia mensal – a renda mínima universal – para consumir e manter a engrenagem em funcionamento. Experiências desse tipo estão sendo feitas, por tempo determinado, na Finlândia. A inteligência artificial nos oferecerá uma nova natureza. As abelhas desaparecerão. Robôs polinizarão sem poesia as plantas.
Os impressos desaparecerão. Livros em papel existirão como se fossem vinis. Para colecionadores. Bibliotecas com volumes impressos serão visitadas como museus. Crianças verão livros com a mesma curiosidade com que as de hoje examinam uma máquina de datilografar. Fábricas de papel terão pouquíssimo mercado. A educação mudará radicalmente. Todo o ensino será a distância. Cada pessoa terá a sua memória artificial. Professores não basearão mais o que ensinam na memorização de informações ainda desconhecidas dos alunos. Escritores existirão como praticantes de uma antiga forma de armazenamento, transmissão de informações e organização da subjetividade. A escrita só não desaparecerá totalmente por causa desses grupos de nostálgicos executores de um modo singular de expressão, de narração e estética.
Nesse novo mundo, não haverá greves nem sindicatos. O Estado cobrará impostos sobre robôs. As pessoas terão chips no corpo que regularão todas as suas atividades: quantos passos dar por dia, o que comer e até o que pensar para evitar compulsões, depressões e outras doenças. Não haverá proibição do uso de qualquer tipo de droga. Em compensação, cada indivíduo será informado segundo a segundo dos efeitos negativos de um produto sobre o seu organismo. Viveremos em torno de 150 anos de idade. A morte será programada como uma cesariana. A grande questão é: o que faremos com todo o nosso tempo livre? Ficaremos todos absolutamente livres para fazer arte, política e ciência. Ou nada. Muito do que virá já está por aí. Ficaremos obsoletos ou super-humanos? Estaremos a caminho das viagens espaciais em massa? Talvez isso demore um pouco mais. Digamos, fique para 2150.
Na Copa do Mundo de 2050 robôs já poderão atuar.
Não vão cair nem chorar.
Serão frios como alemães.
Tudo será definido no planejamento.