Juremir Machado da Silva

A vaca e o deputado

A vaca e o deputado

Continuo minha intergaláctica campanha em defesa do meu romance "Solo". Para quem não entendeu ou não leu por preguiça ou falta de senso de humor, explico: "Solo" é um pastiche, uma paródia, uma radical ironia em relação aos autores de autoajuda e de viagens de iniciação, assim como aos livros modernosos dos imitadores de Joyce e de Guimarães Rosa. É pau puro. Satiriza, ao mesmo tempo, Paulo Coelho e Dan Brown, Chico Buarque e Carlos Castañeda, bruxos e andarilhos, papagaios de síntese e apresentadoras lerdas, esquerdistas reacionários e direitistas utópicos. Meu livro é melhor do que todos os que sairam no Brasil nos ültimos 20 anos e ganharam prêmios dos seus amiguinhos e elogios de jornalistas mediocres que escrevem em cadernos de cultura de jornais patéticos como Folha de S. Paulo, Globo, Estadão ou de revistas de consultório de dentista como Veja, Época e outras do gênero. Eu não inscrevo meus livros para concursos ou premiações. Volta e meia as editoras o fazem sem minha autorização. Quando ganhei prêmios literários, não fui buscar. Considerei que se tratava de um engano. Meu ponto de vista é objetivo, neutro, imparcial e irrefutável. Li todos os livros premiados e sei o quanto são chatos, sem ironia e pretensamente existenciais. Os personagens são sempre burros e parecem estar andando no meio do nevoeiro. Agora, adotei um ditado lá de Palomas: se ninguém gaba, Juca gaba. Em Palomas, o pessoal dizia "gava". Aproveitem mais este fragmento gratuito e absolutamente genial (estou cada vez mais modesto e cerimonioso). Ah, e viva a inveja, o ressentimento e o despeito. Estou numa fase esplendorosa de sinceridade total.
*
O fim do conclave me deixou um gosto amargo na boca, uma sensação de vazio, quase um sentimento de perda, como depois do final de uma novela das oito dessas que pegam a gente por causa de uma intriga envolvente, tipo mãe e filha disputam o mesmo homem, pai e filho brigam por uma mulher, ou de um campeonato de futebol quase ganho pelo nosso time do coração. O resto da programação da tevê parecia sem emoção. Felizmente, as denúncias de corrupção no governo Lula me salvaram do tédio. Voltei à TV Senado, à TV Câmara e, esporadicamente, ao Canal Rural, onde me delicio com a exuberância das vacas, o nível de vida de Primeiro Mundo dos touros, a paz dos campos e o gigantismo das máquinas agrícolas. Estou convencido de que o desenvolvimento de um país se mede pelo tamanho das suas colheitadeiras e pela luxúria dos seus reprodutores premiados. No Canal Rural, os homens e as mulheres são coadjuvantes felizes com as conquistas dos seus animais.
Apesar disso tudo, por força dos novos fatos, escândalos de corrupção e outras coisas menos excitantes que as cenas da vida pública camponesa, não tiro um olho da Globo News, onde os políticos mentem ao vivo, dão explicações hilariantes e comportam-se como bichos sem a educação e o adestramento dos seus congêneres do Canal Rural. Outro dia, pude comparar, graças a um documentário e a uma sessão de CPI, a biografia de um boi com a de um deputado. Não, não estou brincando nem exagerando. Um touro premiado e um deputado têm em comum o destino, as passarelas e as propostas. Existem para aparecer. Além disso, adoram verbas públicas. Mas acabam aí os pontos de encontro. Um boi de respeito nunca mete as patas na lama, não se suja com a merda em torno dele e nunca mente. É incrível como um boi cumpre as suas promessas. Um boi de classe não joga bosta nos colegas. Questão de ética.
Tem sido assim, nos últimos dias, nesta minha vidinha de curral, metade do tempo para os bois, metade do tempo para os deputados. Aprendo muito sobre honestidade com os primeiros. Não me queixo. Atrações não faltam e é menos perigoso que na rua. Vi, num telejornal, que uma bala perdida acertou um cadáver dentro do caixão. Dos males, o menor. Deve ser por isso que um dos reis do agronegócio projetou estábulos a prova de bala e até com interfone.
Uma das minhas últimas grandes alegrias foi o anúncio de um novo canal a cabo, o Premiere Rural.