A vaidade de Derrida
Passamos a semana que nossos generosos amigos franceses. Isso me fez pensar no tempo em que eu fazia entrevsitas com intelectuais em Paris. Era outra turma. Precisei seguir o seminário de Jacques Derrida durante dois anos e meio para conseguir uma entrevista com ele. O cara lia baixo, sem microfone, um texto durante três horas. Toda quarta-feira, das 17 às 20 horas. Eu chegava uma hora mais cedo para arranjar lugar. Depois, não ouvia nada. No ambiente superaquecido, todo mundo suava. A cada ano, o filósofo realizava uma ligeira mudança no programa. Na prática, para meus ouvidos deficientes, tudo continuava muito parecido.
Finalmente o grande mestre aceitou nos receber para uma entrevista cujo gancho era o seu último livro, Espectros de Marx. Magro, grisalho, faces encovadas, o homem encarnava o legítimo fantasma da reflexão. Num final de tarde cinzento, do qual eu enxergava nesgas pela vidraça, a máquina de escrever e de pensar entrou em ação. O céu era uma placa de chumbo. As árvores, nuas, um convite ao suicídio. Derrida falava. A noite instalou-se sem provocar qualquer ruptura. Na placidez do inverno, o tempo era apenas um rio discursivo. Todos, de Platão a Heidegger, desfilaram diante de nossos ouvidos atônitos.
O bom das entrevistas com os intelectuais franceses era o tom de gentil maledicência. Um falava mal do outro. Acostumei-me a semear motivos para alfinetadas. Bastava dizer algo assim: “Antes do senhor, entrevistei fulano de tal...” Em dias sempre cinzas – até parecia que intelectual não dá entrevistas quando tem sol – Pierre Bourdieu falou mal de Derrida, que falou mal de Umberto Eco, que falou mal de todo mundo...
Bourdieu quis ver o texto antes de publicado. Não entendeu uma linha da transcrição em português. Mesmo assim, fez um ar de satisfeito. Derrida, ainda mais rigoroso, exigiu ver as fotos. Levou mais de 15 minutos examinando cada pose, com uma atitude hermenêutica impiedosa. Via-se no seu rosto a extrema dignidade de um pensador profundo que não deixa nada ao acaso, nem a aparência. Depois de muita análise, voltou-se para Aline e perguntou com um fio de voz:
- Em qual delas estou melhor?