Juremir Machado da Silva

A verdade não existe?

Tudo depende do ponto de vista?

Foto :

      Talvez a afirmação mais repetida dos tempos atuais seja esta: tudo depende do ponto de vista. Se estiver certa, estará errada. Se for verdadeira, essa tese não dependerá de ponto de vista. Como se sabe, se tudo é relativo, essa ideia não é relativa. Eu me permitiria citar cem coisas que não dependem de ponto de vista. Este é o meu ponto de vista? Andaremos em círculos? Apresentarei apenas dez para não ser cansativo demais 1) A Terra não é plana. 2) A covid-19 é uma infecção provocada por um vírus, não por uma bactéria. 3) Shakespeare foi melhor escritor do que Paulo Coelho. 4) Beethoven teve mais talento musical do que eu. 5) A dengue é transmitida por um mosquito, não por uma formiga. 6) Pelé jogou mais do que Chicão, com as devidas desculpas por escolher este nome para a comparação. 7) Porto Alegre é uma cidade situada à margem de uma significativa porção de água. 8) Paris fica na Europa. 9) Bois são herbívoros 10) Humanos são bípedes.

      Misturei alguns itens objetivos com outros perpassados por algum grau de subjetividade. Não conheço uma só pessoa capaz de dizer que Pelé jogou menos do que o jogador citado por este amante do futebol há mais de 50 anos. O que isso significa? Boa pergunta. Fala-se cada vez mais que o cérebro humano não está capacitado para ler objetivamente a realidade, que nem sequer existiria da mesma forma para todos. Curiosamente quando pedimos para alguém abrir uma porta, ninguém abre a janela. Se vemos um ônibus se aproximar, não dizemos que é um navio. A supremacia do ponto de vista valeria para questões de gosto, política e economia? Mesmo nesses terrenos pantanosos parece haver coisas que não dependem de ponto de vista: pode haver democracia sem eleições nem liberdade de imprensa? Pode acontecer emissão de dinheiro a rodo sem causar inflação? Este ponto já pode produzir controvérsia.

      Todo gosto afirmado é uma imposição de algum grupo de pressão? Como explicar que alguém se depare, por exemplo, com algum livro, fique apaixonado e decida, sem ninguém pedir, divulgá-lo, comentá-lo, recomendá-lo? Como explicar que esse mesmo livro possa provocar a mesma paixão em lugares diferentes e em pessoas de diferentes classes sociais e biografias? O gosto seria uma questão de adestramento, marketing e distinção ou pode ser uma inclinação espontânea de alguém em relação a uma obra? Neste caso, como justificar que uma mesma obra enfeitice tantas pessoas ao mesmo tempo? Seria uma qualidade da obra? De Aristóteles a Machado de Assis, para encurtar a fila de nomes, falou-se em leis da narrativa. Elas existem? Ou tudo é arbitrário?

      Há muita coisa em litígio, muita verdade que não apresentou a prova da sua validade, muita subjetividade vendida como objetividade, muito particular imposto como universal, muita violência simbólica. Mas tudo é assim? Pode-se provar que um romance é melhor do que outro? Ou só se pode dizer que se gosta mais de um romance do que de outro? Melhor é a obra que teve a felicidade de encontrar melhor acolhida ao longo do tempo e dos lugares? Há obras que encontram sucesso de público e não de crítica. O contrário também é verdadeiro. Outras não encantam público nem críticos. Falta-lhes algo? São ruins? Ou apenas sem sorte? Velhas questões aparentemente sem solução definitiva.

Pragmatismo – Houve um tempo em que todos deveriam ser submetidos ao mesmo gosto de acordo com uma hierarquia controlada pelos donos do belo. Hoje, todos os gostos se equivalem e toda crítica é arbitrária e ofensiva? Triunfa o gosto não se discute? O máximo que se pode alcançar é uma “verdade” estatística: mais pessoas acham as obras de fulano melhores do que as de beltrano, inclusive entre especialistas? Não há máquina capaz de dizer qual obra é melhor ou pior. Dizer que Shakespeare é melhor do que Paulo Coelho não passa de um preconceito com o brasileiro ou há algo poderoso na literatura do bardo que não se encontra na do mago? O que seria? Complexidade? Profundidade?

      Se todo gosto é arbitrário, por que indicar em escolas este ou aquele autor na medida em que não é possível estudar todos? Chamemos isso de paradoxo da cultura: parecemos saber o que é melhor, mas não temos como provar isso categoricamente. O chamado “bom gosto” é cada vez mais denunciado como um gosto de classe ou, como se diz, gosto do homem branco europeu colonizador. Deve-se trabalhar com o que agrada à maioria ou com o que é legitimado pela minoria especializada? Bom é o que funciona? O que funciona (vende, encontra público) é bom? A maioria consome o que escolhe ou escolhe o que o mercado quer que escolha? Arte é o que desafia o público com o que ele não pode esperar nem está preparado para decifrar? Entretenimento é o que, depois de pesquisa, atende o gosto do destinatário sem o tirar da zona de conforto? É possível gostar dos dois ao mesmo tempo. Mas é aceitável que em algum momento se valorize um mais do que o outro? Não tenho respostas. Como sempre, todos os bons argumentadores me convencem.