Paulinho das Cadelas tinha uma ideia fixa: pegar a Teresinha Fanha.
Assim mesmo.
Nomes não enganam.
Saem direto da realidade.
Paulinho das Cadelas e Teresinha Fanha moravam na Vila das Cadeiras.
Teresinha, além de ser fanha, era a cachorra mais gostosa do lugar.
Não dava a mínima para o Paulinho das Cadelas.
A vida real pode ser assim, nua e crua.
Foi um motorista de táxi quem me contou.
Segundo ele, Teresinha gostava de beber algo mais forte ao cair da tarde.
Paulinho das Cadelas sentiu-lhe o ponto fraco.
Esperou-a com uma garrafa de uísque adquirida em regime de emergência.
Barras alaranjadas coloriam o horizonte.
A noite descia sem a menor pressa.
Ouviam-se buzinas ao longe.
Teresinha aceitou o convite para, digamos, um drinque.
Aos poucos, ficou mais leve, solta e dada.
Paulinho das Cadelas arrastou-a para um matinho.
Teresinha sentiu um calafrio.
Ele a despiu como quem esculpe uma imitação de Rodin.
Ficou maravilhado com o que viu.
Um monumento em pedra bruta.
Atirou-se sobre ela como quem bebe a última gota.
Ela apenas resmugou:
– Fomiga.
Ele acelerou.
– Mais fomiga.
– Estou fornicando, Teresinha.
– Fomiga, fomiga, fomiga.
E Teresinha jogou-o longe e levantou-se pegando fogo.
Estava deitada sobre um formigueiro.
Paulinho das Cadelas ainda não teve a segunda chance.
•
Foi o Alex Bagé, repórter da Rádio Guaíba, quem contou.
Eu apenas completei o que ele não teve tempo de detalhar.
Um boleiro famoso foi comprar um carrão numa dessas concessionárias.
Ficou deslumbrado com a vendedora.
Levou a máquina sem pechinchar.
E a imagem da moça.
Passados alguns dias, o boleiro voltou ao lugar do crime.
Quer dizer, da compra.
Levou outra máquina poderosa e cara.
E o telefone da gata.
Mais um tempo, terceira visita à loja, já separado da mulher ou pensador em fazer isso se fosse necessário.
Propôs levar a atendente.
Ela, encantada, pediu-lhe um carro zero.
Ganhou.
Amor à primeira vista.
Não faz muito, a máquina mandou uma mensagem com foto para as ex-colegas.
Na imagem, ela aparece pilotando uma Ferrari numa cidade asiática.
Comentário singelo: "O volante é meio duro".
A vida continua sendo o que sempre foi.
Uma loteria.
Bingo!
*
Todo ano era a mesma coisa.
João Vieira descia da sua torre de marfim para distribuir presentes. Durante uma semana, era outro homem.
Depois, como se nada tivesse acontecido, vestia novamente a sua couraça e voltava aos negócios.
O Natal transfigurava João Vieira.
Na verdade, ele não se transformava noutro homem inteiramente. Permanecia silencioso, quase árido.
O espírito natalino não o amolecia. João Vieira detestava pieguice, melodramas e sentimentalismos.
O Natal era oportunidade para ele de fazer o bem, de minorar o sofrimento de alguns e de cumprir uma promessa que fizera muitos anos antes à sua mãe: pensar nos pobres.
Cumpria o seu papel com eficiência. Gastava uma boa quantia. Como era um homem de princípios, não delegava a sua tarefa para a secretária. Caso fizesse isso, teria a sensação de estar trapaceando. Escolhia e entregava os presentes. Com o tempo, encontrou seus métodos.
Certo Natal, pegou uma carta numa agência dos correios e foi atrás do remetente.
O pedido, assinado por Lu, de 10 anos, era muito particular: Vem me ver.
João Vieira teve medo. Pensou que podia ser uma armadilha. Imaginou-se sequestrado ou morto.
Deixou a carta de lado por alguns minutos. Ficou pensativo. Pegou outras cartas. Já estava indo embora quando uma espécie de palpitação o fez retomar a primeira carta. Num impulso, o que raramente lhe acontecia, decidiu encontrar o remetente. Queria conhecer aquele Lu. Queria saber quem era o menino que só pedia uma visita.
Comprou muitos brinquedos e sentou-se ao volante do seu carro. Digitou o endereço no GPS e deu a partida. Não andou 20 metros. Achou que precisava comprar alguma coisa mais útil. Entrou num shopping e adquiriu um computador e uma bicicleta. Saiu radiante imaginando a alegria de Lu.
Guiado pela precisão do aparelho, que lhe parecia um brinquedo maravilhoso, encontrou sem dificuldade a casa do menino, que estava sentado num degrau de madeira.
João Vieira mostrou-lhe a carta. O menino sorriu. O homem tirou do carro seus presentes. Lu sorriu novamente.
Em poucos minutos, João Vieira sufocou o guri de presentes. Lu apenas sorria. Um sorriso tímido e bonito.
Desconcertado com a falta de comentários do menino, João Vieira cometeu quase um excesso: pousou a mão na cabeça da criança, fez-lhe um afago e voltou ao carro.
Já ia bater a porta quando uma ouviu a vozinha de Lu tilintar nos seus ouvidos como se fosse de brinquedo:
- Senhor... Eu só queria...
- Não gostou dos presentes?
- Sim, claro, mas eu queria mesmo era...
- Diga, menino, que eu compro.
- Eu só queria um abraço.
- Um abraço!?
- Sei que é difícil, mas eu nunca ganhei um.
João Vieira descobriu o valor da pieguice.