Juremir Machado da Silva

A vida longe dos holofotes

As soberanas da Oktoberfest
As soberanas da Oktoberfest Foto : Divulgação
Paulinho das Cadelas tinha uma ideia fixa: pegar a Teresinha Fanha.

Assim mesmo.

Nomes não enganam.

Saem direto da realidade.

Paulinho das Cadelas e Teresinha Fanha moravam na Vila das Cadeiras.

Teresinha, além de ser fanha, era a cachorra mais gostosa do lugar.

Não dava a mínima para o Paulinho das Cadelas.

A vida real pode ser assim, nua e crua.

Foi um motorista de táxi quem me contou.

Segundo ele, Teresinha gostava de beber algo mais forte ao cair da tarde.

Paulinho das Cadelas sentiu-lhe o ponto fraco.

Esperou-a com uma garrafa de uísque adquirida em regime de emergência.

Barras alaranjadas coloriam o horizonte.

A noite descia sem a menor pressa.

Ouviam-se buzinas ao longe.

Teresinha aceitou o convite para, digamos, um drinque.

Aos poucos, ficou mais leve, solta e dada.

Paulinho das Cadelas arrastou-a para um matinho.

Teresinha sentiu um calafrio.

Ele a despiu como quem esculpe uma imitação de Rodin.

Ficou maravilhado com o que viu.

Um monumento em pedra bruta.

Atirou-se sobre ela como quem bebe a última gota.

Ela apenas resmugou:

– Fomiga.

Ele acelerou.

– Mais fomiga.

– Estou fornicando, Teresinha.

– Fomiga, fomiga, fomiga.

E Teresinha jogou-o longe e levantou-se pegando fogo.

Estava deitada sobre um formigueiro.

Paulinho das Cadelas ainda não teve a segunda chance.

•

Foi o Alex Bagé, repórter da Rádio Guaíba, quem contou.

Eu apenas completei o que ele não teve tempo de detalhar.

Um boleiro famoso foi comprar um carrão numa dessas concessionárias.

Ficou deslumbrado com a vendedora.

Levou a máquina sem pechinchar.

E a imagem da moça.

Passados alguns dias, o boleiro voltou ao lugar do crime.

Quer dizer, da compra.

Levou outra máquina poderosa e cara.

E o telefone da gata.

Mais um tempo, terceira visita à loja, já separado da mulher ou pensador em fazer isso se fosse necessário.

Propôs levar a atendente.

Ela, encantada, pediu-lhe um carro zero.

Ganhou.

Amor à primeira vista.

Não faz muito, a máquina mandou uma mensagem com foto para as ex-colegas.

Na imagem, ela aparece pilotando uma Ferrari numa cidade asiática.

Comentário singelo: "O volante é meio duro".

A vida continua sendo o que sempre foi.

Uma loteria.

Bingo!

*

Todo ano era a mesma coisa.

João Vieira descia da sua torre de marfim para distribuir presentes. Durante uma semana, era outro homem.

Depois, como se nada tivesse acontecido, vestia novamente a sua couraça e voltava aos negócios.

O Natal transfigurava João Vieira.

Na verdade, ele não se transformava noutro homem inteiramente. Permanecia silencioso, quase árido.

O espírito natalino não o amolecia. João Vieira detestava pieguice, melodramas e sentimentalismos.

O Natal era oportunidade para ele de fazer o bem, de minorar o sofrimento de alguns e de cumprir uma promessa que fizera muitos anos antes à sua mãe: pensar nos pobres.

Cumpria o seu papel com eficiência. Gastava uma boa quantia. Como era um homem de princípios, não delegava a sua tarefa para a secretária. Caso fizesse isso, teria a sensação de estar trapaceando. Escolhia e entregava os presentes. Com o tempo, encontrou seus métodos.

Certo Natal, pegou uma carta numa agência dos correios e foi atrás do remetente.

O pedido, assinado por Lu, de 10 anos, era muito particular: Vem me ver.

João Vieira teve medo. Pensou que podia ser uma armadilha. Imaginou-se sequestrado ou morto.

Deixou a carta de lado por alguns minutos. Ficou pensativo. Pegou outras cartas. Já estava indo embora quando uma espécie de palpitação o fez retomar a primeira carta. Num impulso, o que raramente lhe acontecia, decidiu encontrar o remetente. Queria conhecer aquele Lu. Queria saber quem era o menino que só pedia uma visita.

Comprou muitos brinquedos e sentou-se ao volante do seu carro. Digitou o endereço no GPS e deu a partida. Não andou 20 metros. Achou que precisava comprar alguma coisa mais útil. Entrou num shopping e adquiriu um computador e uma bicicleta. Saiu radiante imaginando a alegria de Lu.

Guiado pela precisão do aparelho, que lhe parecia um brinquedo maravilhoso, encontrou sem dificuldade a casa do menino, que estava sentado num degrau de madeira.

João Vieira mostrou-lhe a carta. O menino sorriu. O homem tirou do carro seus presentes. Lu sorriu novamente.

Em poucos minutos, João Vieira sufocou o guri de presentes. Lu apenas sorria. Um sorriso tímido e bonito.

Desconcertado com a falta de comentários do menino, João Vieira cometeu quase um excesso: pousou a mão na cabeça da criança, fez-lhe um afago e voltou ao carro.

Já ia bater a porta quando uma ouviu a vozinha de Lu tilintar nos seus ouvidos como se fosse de brinquedo:

- Senhor... Eu só queria...

- Não gostou dos presentes?

- Sim, claro, mas eu queria mesmo era...

- Diga, menino, que eu compro.

- Eu só queria um abraço.

- Um abraço!?

- Sei que é difícil, mas eu nunca ganhei um.

João Vieira descobriu o valor da pieguice.