Juremir Machado da Silva

A volta de O gato e a revolução

Gato censurado

Alcy Cheuiche está na estrada da literatura há um bom tempo. É homem de múltiplos talentos. Ensina e faz. Em 1967, durante a 13ª Feira do Livro de Porto Alegre, em meio ao regime militar, ele lançou o romance “O gato e a revolução”. Foi censurado e processado. A edição foi recolhida. Agora, meio século depois, o autor autografará hoje, a partir das 18h30, a terceira edição do seu livro. Antes, às 17 horas, na sala Leste do Santander Cultural, terá uma mesa sobre a obra com a participação de Olívio Dutra, Luiz Augusto Fischer e Flávio Ledur.

Fischer, professor da UFRGS e crítico literário, fez uma apresentação ao romance. Foi direto ao ponto: “Um livro de 50 anos ganha reedição aqui e agora. Um livro que, 50 anos atrás, trazia uma sátira, em forma de farsa, contra o regime de exceção instalado no Brasil pouco antes – o livro foi concluído em 1967, três anos depois do Golpe Civil-Militar que se aprofundou um ano depois do livro, em 1968, com o medonho Ato Institucional número 5. Um livro que agora, meio século depois, respira o ar de outro golpe, agora midiático-parlamentar (talvez seja o caso de inverter a ordem dos adjetivos), que pôs no poder...” A história tragicamente se repete como farsa.

A leitura de “O gato a revolução” mostra Alcy preparando suas armas de combate. O começo já é quase um manifesto por uma literatura do cotidiano e dos homens comuns: “Ernesto Epaminondas de Araújo, Nondinho para os amigos, era um pobre diabo de quarenta anos, pouco cabelo e menos ideias debaixo deles. Sua profissão era a de soldado da Brigada Militar, ou brigadiano, para ser mais exato. Da vida nada mais tinha que dois uniformes surrados: um de serviço, outro de passeio e um velho traje de linho bege, para casamentos, batizados e, duas ou três vezes ao ano, para dar uma voltinha pela Rua Voluntários da Pátria. Quando criança vira passar uma banda da Briosa, e boquiaberto, deslumbrado pelo colorido da música, de imediato decidira a futura profissão. Honra a sua persistência!” O restante mexeu os verde-oliva.

Não falarei do gato. Sem spoiler sobre esse ponto. Nada como um bom livro recolhido pela censura para honrar a biografia de um escritor combativbo. Censores são os melhores marqueteiros. Fazem ler até quem raramente abre um livro. É claro que na hora não deve ser engraçado para um autor. Sigamos em frente. O leitor encontra nas páginas de “O gato e a revolução” o famoso retrato de época. Tem gente que vai se arrepiar ou chorar numa situação paradoxal: sentirá até saudades daquele tempo, mas não, espero, da ditadura e dos censores.

A primeira edição saiu pela Sulina. Num posfácio à atual edição (AGE), Alcy conta uma deliciosa anedota. Pediu a Mario Quintana para sentar ao seu lado nos autógrafos, que ocorriam nas barracas de cada editora, para chamar gente. Deu certo. Depois disso, teve um encontro com Erico Verissimo na casa do autor de “O tempo e o vento”. Era um baita começo para um jovem alegretense cheio de ambições e projetos.