Juremir Machado da Silva

A voz interior que me subjuga

Ecos de uma personalidade dividida

      Tem horas em que eu me inflamo e me ouço, exaltado, criticar isto e aquilo. Fico surpreso com a intensidade da indignação e me pergunto: quem está falando? Há algo de estranho nessa voz interior que me submete e grita quando eu quero falar baixo, contemporizar e suavizar. Que voz é essa que se impõe com a força incontida de um animal ferido? Logo eu que tenho mais dúvidas que certezas e sempre tento me colocar no lugar dos outros para quem saber sentir o que sentem e compreender o que pensam e dizem. Sempre me espanta a uniformidade do pensamento. Tenho tanta curiosidade pelo diverso, tanta vontade de entender o que leva cada um a fazer suas escolhas e isso faz de mim um relativista.

      Quando me ouço inflamado, defendendo ferrenhamente um ponto de vista, fico impressionado com a minha submissão a essa voz que me comanda. Nas noites de insônia eu me prometo nunca mais me deixar incendiar por essas paixões retóricas e por essas ideias que queimam, para lembrar o poeta, como “círios numa catedral em ruínas”. Mal amanhece e já me vejo em novos combates, submetido por injunções que vazam do mais fundo de mim. Gilbert Durand, autor do magnífico livro “As estruturas antropológicas do imaginário”, obra maior sobre esse tema, criou uma categoria chamada de trajeto antropológico, que todo mundo realiza ao longo da vida: “a incessante troca que existe no nível do imaginário entre as pulsões subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam do meio cósmico e social”. É isso.

      Essa voz que se inflama em mim, contra a minha vontade, vem de uma pulsão subjetiva, do mais profundo de mim, ou de uma intimação objetiva, de uma imposição social? Quando penso no assassinato do negro George Floyd pelo policial branco americano, numa situação de pura covardia, eu me inflamo e falo como se estivesse querendo brigar. Quando penso nas misérias humanas, no tamanho da desigualdade de um abismo chamado Brasil, eu me inflamo outra vez. Na solidão da noite, quando tudo é quietude, eu me digo que não adianta, que é inútil, que preciso mudar. E mudo por uma manhã, uma tarde, um dia quase inteiro. Não, eu não me sinto moralmente melhor do que ninguém. Não sou militante, não sou ativista, não pertenço a qualquer coletivo. No meu trajeto antropológico, tento equilibrar as forças que me submetem.

      Quero a doçura dos pássaros que cantam na manhãzinha ensolarada, quero o perfume das flores na primavera ainda tímida, quero o abraço que não pode ser dado, quero a poesia tornada anacrônica, quero a alegria das conversas pelo amor da convivência, quero argumentar sem a pretensão de ganhar e sem a frustração de perder, quero vibrar com a inteligência dos outros e comemorar a diferença, mesmo aquela com a qual não concordo, mas a voz que me submete se eleva e queima minha boca: até que ponto? Qual o limite? E já se inflama, discursa, desafina e derrapa. Pergunto a um sábio o que pensa disso. Ele me responde com bonomia: somos livres para obedecer ao que nos toca o coração.

Como silenciar essa voz quando ele grita comigo para que eu:

– não me cale diante do racismo

– não me acovarde diante das tentativas de intimidação

– não fuja por medo dos perigos que rondam

– não tolere os desmandos do poder

– não aceite a naturalização da desigualdade

– não me deixe dominar pelo cinismo, pela indiferença e pela insensibilidade

– não para de lutar, apesar das minhas poucas forças, contra a exclusão social

– não baixe a cabeça diante das mentiras dos poderosos

– não deixe de me posicionar face às contradições, incoerências e falsificações

Essa voz que me domina tem seus valores. Quantas vezes eu a decepciono!