Abominável, abominável

Abominável, abominável

Mulher abandonada no deserto

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    Eu não paro de pensar na brasileira que morreu abandonada pelos amigos de infância na travessia do deserto rumo aos Estados Unidos. Não tenho predileção por matérias mórbidas. Mas essa tragédia diz algo sobre nós todos. Como foi possível que uma mulher fosse deixada sozinha em meio ao nada enquanto os demais seguiam na viagem ao suposto paraíso? Parece que um deles alegou a necessidade de seguir em frente, de avançar, de evitar o contato com a polícia de fronteira. Ou seja, era salve-se quem puder, cada um por si, azar dos mais fracos.
    Por que não interromper a viagem? A vida da amiga não valia um tempo de prisão e a deportação para o Brasil? Alguém dirá que é fácil julgar de longe, de casa, sem conhecer as necessidades das pessoas, sem saber o que as empurrava com tanta ânsia para outra país. Mesmo sem estar nesse lugar que não é meu, como qualquer um, posso pensar que havia um compromisso da solidariedade com a companheira. A mulher morreu de sede, implorando por água, acreditando que alguém viria resgatá-la. Enquanto isso, os parceiros comemoravam a chegada ao ponta final. Missão cumprida. Meta alcançada. Vida nova. A que custo?
    É triste que tanta gente tenha de partir em desespero. Esse é um sintoma de um fracasso. De algum modo a base de tudo desmorona: solidariedade, humanidade, empatia. Há algo terrível nesse abandono: a banalidade. Não eram monstros psicopatas. Eram pacatos amigos de infância. Ela teve coragem para ficar sozinha? Falta de opção. Restava-lhe um celular com pouco crédito para disparar seus últimos pedidos de socorro. É assim, se pensarmos que a parte está no todo e todo está na parte, como ensinava Pascal, ficamos menos humanos.
    Lenilda Oliveira dos Santos, 49 anos, morreu, segundo o irmão dela, Moizaniel de Oliveira, rastejando e pedindo água: “Foi uma covardia grande demais, eles são todos de Vale do Paraíso, tudo gente conhecida. E agora não temos informações sobre eles, mas acho que conseguiram entrar nos Estados Unidos. Apesar dessa crueldade, eles devem estar aqui (nos EUA). Eles eram pessoas caminhando pelos mesmos sonhos. Você vai deixar o sonho do outro morrer? O que custa ajudar o outro a sonhar junto?” Lenilda quer voltar a ser faxineira nos Estados Unidos para ajudar a pagar a faculdade das filhas. Que tristeza.
    Como qualquer um, eu tenho um sonho: o dia em que ninguém precisará ir embora do seu país para pagar a faculdade dos filhos. Sonho também bom o dia em que ninguém terá de deixar seu Vale do Paraíso natal para buscar um suposto paraíso atravessando desertos, guiado por “coiotes” pagos com o que não se tem, em companhia de chacais. Sonho, enfim, com a volta de uma velha noção de humanidade.
*
Cresci em vastos pátios amarelados
Ao Sul dos quais começava o infinito
Estrelas eram luzes com lugar certo
Trens apitavam antes da curva
Aves migravam sem se despedir
Heras subiam por ásperas paredes
Minha mãe me chamava ao entardecer:
“Entra, menino, que a noite te pega”.

 

 


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Correio do Povo
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