Afagos e pontapés
Já nos vimos antes. Eu o reconheci, creio que no dia 3 de outubro de 2008, perto do Palais de Justice, em Paris.
Ao chamá-lo por seu nome, você se virou, me cumprimentou e eu lembrei que você recentemente tinha sido nomeado Chevalier, uma honra que só os intelectuais francófonos conseguem aquilatar.
Depois do aperto de mão e de uma ou duas gentilezas (os dois estávamos acompanhados, de "mecs" pas de filles), cada um seguiu seu caminho.
Você talvez nem lembre o incidente, mas o menciono com o intuito de convencê-lo a ler mais algumas linhas desta mensagem.
Juremir (os homens públicos, como você têm de suportar essa massacrante familiaridade de serem "tutoyés" por desconhecidos), leio suas crônicas todos os dias. Aliás, depois que o CP "Yedou", somente suas crônicas me fazem manter a assinatura. Gosto de quase todas as crônicas; não todas porque às vezes você "viaja" um pouco além da conta. Mas a de hoje (sábado) e a de amanhã (domingo) são simplesmente fantásticas.
A de sábado me trouxe de volta a lembrança da fronteira, onde, assim como você, nasci e morei até os 17 (só que do lado uruguaio, mesmo que apenas a 400 m da "Linha"). Trouxe aquela visão idílica que guardamos da infância, mesmo quando dura (como é seu caso), mas trouxe também a melancolia que nos assalta quando começamos a perceber que são os de nossa geração que estão indo embora.
Não conheci seu cunhado, embora tivesse praticamente minha idade (e você sabe que na Sarandí todo o mundo se encontrava), mas se você, colorado que é, deseja que o Grêmio seja campeão em homenagem ao Irio, compreendo quanto você gostava dele e quanto ele vai fazer falta. Ao escrever a crônica deste sábado imagino que você tenha até chorado (eu às vezes me emociono quando escrevo) porque no fundo guarda o espírito de guri simples, brincalhão e afetivo.
A crônica de domingo expõe seu lado intelectual (não vazio) mais notável. Alguém que não tem constrangimento de dizer e mostrar que quem tem capacidade de pensar e ir além das obviedades de mau gosto (tipo BBB), não deve esconder, muito menos envergonhar-se. Ao ler em sua crônica a menção ao retrato de Rimbaud quando jovem, lembrei que meu irmão mais velho, que mora no Chile, tem uma réplica do mesmo em sua mesa de trabalho. E veja a coincidência, ainda esta tarde tive em minha mãos um ensaio sobre Rimbaud (aparentemente recém publicado). Não guardei o nome do autor, mas é inglês (ou de fala inglesa). Quase o comprei, mas me dei conta que só sabia de Rimbaud que tivera um caso com Paul Verlaine, que escrevera sua obra antes dos 20 anos e que tinha tido um fim pouco nobre em algum lugar distante. Parei, não comprei, mas me prometi ler Rimbaud em francês (comme il faut), porque se meu rimão que é meu mentor intelectual e você, meu escritor favorito, lembram Rimbaud é porque ele o merece.
Então lembrei de uma música muito linda de Pascal Obispo, que tem o nome desta mensagem e cuja letra envío em anexo. Se você nunca a ouviu ou não se lembra, procure na internet. Não custa repetir "Ce qu’on voit... ce qu’on entend... De la pluie ou bien du vent. C’est une saison qui se perd. C’est l’enfer, c’est l’enfer.". A próxima vez que for a Paris, procurarei o Cluny-Sorbonne. Quase sempre fico mesmo por lá perto (5éme, 6éme). Espero até la ter encontrado tempo para ler Rimabud.
Bem, imagino que já consumi o tempo que tinha de sua atenção. Esqueci de dizer que além de sermos coterrâneos (ou quase, faltaram 400 m), contemporâneos (vou fazer 54 em agosto), francofones (embora não tenha nem de perto sua erudição), somos também colegas de profissão. Isto é, também sou Professor (há 34 anos). Embora meu campo seja bem diferente (ensino Pavimentação na EE da UFRGS) do seu, somos, en fin, professores.
Imagino que seja um abuso, mas o cometerei assim mesmo: se tiver algum tempo libre, convido-o (se quiser leve sua esposa, mas avise para eu levar a minha também) a tomar chope e comer bolinhos de bacalhau na Caverna do Ratão. Se colar, colou; se não, valeu a pena ter tentado.
Se chegou até esta parte da mensagem, muito obrigado pela paciência. Continuarei sendo leitor fiel, mesmo se um dia você cometer a insensatez de escrever na "Veja" (aliás, como mencionou outro leitor, a Carta Capital é mais honesta pois deixa bem claro que é da esquerda e não se traveste de imparcial como a FSP, o Globo, ZH e, pasmen, o CP), mas, pelo menos enquanto puder, honre suas origens (humildes, mas honestas), sua inteligência (no campo da direita, se envereda inevitavelmente para o cinismo) e seu cargo de Chevalier.
Je vous prie d’acepter, cher M., mes salluations les plus cordiaux
Washington Peres Núñez
wpnunez@superig.com.br
Prezado Jornalista,
lendo sua coluna, na data de hoje, 24.04.10, deparei-me com uma observação sobre o medo que o Sr. sentiu no Hotel Home Latin (Paris). Assim que, em face a essa informação e como tenho reserva para breve neste hotel, se possível, gostaria que me explicasse, se não for de cunho pessoal, o porquê de tanto medo no referido hotel.
Atenciosamente,
Tania Molina Camargo Dornelles
Adv. OAB/RS 41705
Quase chorei quando li tua coluna de hoje (24/04).
Cresci num lugar chamado Lajeado Ouro, interior de Alecrim, mais ou menos uns 50km de Santa Rosa.
Saí de lá tinha 12 anos. Em novembro do ano passado retornei, tenho contato com algumas pessoas, mas não as visitava.
O lugar tá cada vez mais lindo, muito mato, deserto, riozinho limpo...
Mas as pessoas, cada vez mais raras, todas indo embora. Não tive coragem de perguntar pelo seu fulano ou dona fulana, de medo de ouvir o pior.
Eles esperavam aquela guria esquálida que saiu de lá com 12 anos, hoje com 38, e eu me apavorei com as pessoas da minha idade judiadas pela lavoura com cara de 60.
Foi muito bom ler a tua coluna e me lembrar da época do ariticum, da colheita da soja, das pitangas, das bergamotas...
Abraços
Leda Beatriz Schmitt
Porto Alegre
Caro Juremir: Gosto muito da sua coluna (do jornal), mas querer que o gremio ganhe o gauchão, para homenagear o seu cunhado Irio!? é um convite para nunca mais ler o o correio, que assino a anos. Nós colorados temos que separar futebol, de família e vida pessoal, afinal tem pessoas que preferem ver o seu time jogar a ir a velório de parente. E tem mais:
cunhado NÃO é parente!
COLORADO: MARIONI ALVES DIAS - ITAQUI - RS