O que significa o casamento do príncipe Harry com a atriz Meghan Markle para a história da humanidade? Nada. Harry não será rei. Se fosse também nada mudaria. É uma visão realista e certamente rabugenta. Milhões de pessoas ligaram televisões no sábado para ver a cerimônia. Um casamento real é tão irreal que para ser atual precisa de cavalos e carruagens numa revelação paradoxal do seu majestoso anacronismo. Um olhar mais generoso ou complacente focaliza a evolução dos costumes: um príncipe inglês casando-se com a filha de uma negra. A moça, divorciada, mais velha do que o consorte, não jurou obediência ao marido nem prometeu parar de trabalhar ou de ser o que sempre foi.
Por que tantos gostam de reis, rainhas, príncipes e princesas? Uma hipótese é que ainda não nos tenhamos livrado da síndrome de súditos. Outra é que haja admiração pelos que parecem se elevar, nem que seja pelo nascimento, acima do rebanho humano. Por fim, gostamos de novidades e de qualquer coisa que nos pareça diferente. A corte inglesa não dá prejuízo para o erário. Afirma-se que dá lucros. É um excelente instrumento de marketing. Mobiliza a indústria do turismo. Os defensores da monarquia louvam a estabilidade que a instituição produz. Sendo dinástica e quase não tendo poder de ação sobre a realidade, fica bastante difícil desestabilizar qualquer coisa.
Monarquia e democracia não poderiam se casar. Por princípio nenhum cargo público poderia ser transmitido por nascimento. As regras de etiqueta, recuperadas pela mídia para divertimento global, escancaram o anacronismo dessa relação: quando um plebeu encontra um membro da realeza deve baixar a cabeça e esperar que o ungido lhe dirija a palavra e aperte a sua mão. Quem pode estar disposto a se submeter a essa praxe salvo por gosto teatral ou por temer a terrível punição de nunca mais ser convidado para uma festa em palácio? Como uma figura real não cometeria a deselegância de denunciar o erro de etiqueta do outro, nada acontece e todos ficam felizes para sempre.
O casamento real não cobrou direito de transmissão. A realeza tem muito a aprender com a FIFA. O espetáculo foi leve e gracioso. O noivo mostrou-se convincentemente real: riu nervosamente e deixou perceber que estava com a boca seca. A noiva parecia levitar. A mãe de Meghan ficou suavemente emocionada. Na medida realmente certa. A família real britânica mostrou a emoção de sempre: em tons pastéis. A modernidade, ou hipermodernidade, do evento concentrou-se, como sempre, no acessório: os chapéus das convidadas. Um acontecimento com cavalos, carruagens e mulheres de chapéu indica o que ainda seremos.
As cenas mais reais e realistas do casamento de fadas ficaram por conta da princesa Charlotte, de três anos, sobrinha do noivo: ela chegou mostrando a língua para a galera, fez beicinho na hora de descer do carro, coçou a canelinha na saída da igreja e, no gesto mais significativo para a história, limpou o nariz na barra do belo vestidinho branco ao descer a escadaria amparada pela mão da mãe. Uma fofura. Só as crianças salvam a realeza da irrealidade.