Juremir Machado da Silva

Ainda sobre o BBB12, UFC e triunfo da chinelagem

Até que ponto o gosto do outro deve ser respeitado? O primado da tolerância deve silenciar a crítica? Toda crítica frontal a um tipo de gosto é preconceito? A expulsão de um participante do BBB12, reality-show da Rede Globo, por suspeita de estupro obriga a falar disso. Quem gosta do programa, escorado na ideia simples de que é brincadeira, lazer e um jogo inofensivo, detesta que se fale mal do baixo nível do que é exibido. O Brasil parece ser um dos poucos ou único país com 12 edições do Big Brother em rede nacional aberta e em horário nobre. É inegável uma evolução no programa: a cada ano, fica pior. Como se sabe, a baixaria não tem piso nem teto. Mas estamos vivendo a era do consumidor mimado, triunfante, incriticável, infantilizado, agressivo, sempre com razão, que se regala espiando o gozo obsceno dos outros para satisfazer os seus mais baixos e selvagens instintos.

Não se trata de dar lições de moral ou de fazer pose de intelectual. A questão é outra: como chegamos a esse ponto? Houve um tempo em que o elitismo sufocava os gostos populares. A hipocrisia se impunha como uma máscara social. Hoje, os gostos ditos populares, fabricados pela chamada indústria cultural, asfixiam qualquer crítica como expressão de preconceito, o que esconde um preconceito maior, a ideia de que as tais camadas populares só se divertem com chinelagem. O que é mesmo chinelagem? Uma casa com um número de camas inferior ao de moradores para obrigá-los a dormir juntos em público. Um jogo em que o sexo deve ser o horizonte incontornável para delírio de milhões de voyeurs. Uma brincadeira que termina em suposto estupro, em polícia nos domínios da televisão e em constrangimento nacional.

Chinelagem também é colocar fama e dinheiro absolutamente acima de tudo. Chinelagem é produzir um imaginário centrado na ideia de que o mais importante é se tornar celebridade e que esse objetivo justifica os maiores micos e o abandono de qualquer limite. O suposto estupro do BBB12 é a cara de certo Brasil, o Brasil que quer cometer infrações de trânsito sem ter de pagar multas, o Brasil em que parlamentares são os primeiros a não respeitar normas, em que magistrados não querem controle externo e recebem auxílio-moradia sem sair de casa, o Brasil em que estádios de futebol são prioridades em relação a hospitais, o Brasil em que os muito ricos pagam menos impostos, o Brasil que só quer gozar, ainda que seja um gozo passageiro, escabroso, cínico e feio.

Está mais do que na hora de se atacar em várias frentes: acabar com preconceitos, respeitar diferenças, levar na boa brincadeiras de estação e, ao mesmo tempo, defender uma utopia: a possibilidade de diversão para todos que exija um pouquinho mais do cérebro de cada um, o que, há alguns anos, era chamado de criatividade e inteligência. O pior mesmo, enquanto a utopia não se realiza, é a hipótese radical que rola nas redes sociais: o suposto estupro do BBB12 seria apenas uma estratégia de marketing. Aí, claro, só resta gritar: que baita chinelagem! Esse pode ter sido o nosso 11 de setembro.

Ainda que, claro, tudo acabe na pizza do mal-entendido.

A pizza está servida.

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Jean Baudrillard formulou a pergunta óbvia: por que as pessoas olham o Big Brother?

As possíveis respostas sobre as quais escreveu ou tagarelou em mesa de bar em termos irônicos, sacanas ou sérios são:

a) porque são totalmente idiotas

b) porque nada têm para fazer nada vida

c) porque gostam de espiar os outros pelo buraco da fechadura

d) porque gostam de baixaria

e) porque o BB estabelece uma passagem da democracia convencional – regime do mérito, da fama como merecimento por uma grande realização, os mais de mil gols de Pelé, a lei da relatividade de Einstein, as façanhas tecnológicas de Steve Jobs  – à democracia radical – à fama ao alcance de qualquer sem qualquer mérito. Em outras palavras, fama, grana e uma gostosa ao alcance da mão sem precisar se destacar. O telespectador pensa: se esse cara medíocre chegou lá, eu também posso.

Chinelagem é olhar o BBB e o UFC – que, como toda luta, não passa de uma troca de agressões físicas, socos e pontapés, no caso – e ainda defender e se vangloriar. Claro que o UFC tem um lado social – mas há outros muito mais interesses, por exemplo, estudar em vez de querer um atalho a socos e coices na esperança de ter fama e dinheiro mais farto – e que o BB tem um aspecto de vibração em comum e de jogo. Mas é como enfiar o dedo do nariz. Se alguém não resiste, que o faça o discretamente e não coloque a meleca diante dos olhos de todos. Nem saia por aí contando vantagem. Quanto ao estupro, a Globo vai certamente explicar a expulsão de Daniel na justiça, onde o cara terá suas razões para exigir bem mais de um milhão de recompensa.

A chinelagem, em todo caso, não poderá mais ser apagada.

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OBS: não adianta mandar comentários com palavrões, insultos homofóbicos ou pegadinhas. Quem está em foco é o BB. Não adianta dizer que há outros assuntos mais importantes. Há espaço para todos os temas, inclusive os muito sérios, que, quando tratados, não costumam receber comentários justamente dos que os reclamam quando incomodados por algum assunto como o BBB.

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Cotoveladas de Felipe Sertanejo castigam adversário canadense no último UFC RioCotoveladas de Felipe Sertanejo castigam adversário canadense no último UFC Rio


18/01/2012 - 06h00

Globo determina inserção do UFC em telejornais com didatismo e veto a sangue


Bruno Freitas
Do UOL, em São PauloCom duas transmissões ao vivo de UFC desde que acertou como parceira oficial no Brasil da liga de MMA, no fim do ano passado, a Globo já passou pelo batismo no esporte, em projeto disseminado através dos telejornais da casa. Mas antes de levar o mundo do octógono a sua base convencional de audiência na TV aberta, a emissora estudou maneiras de abordar jornalisticamente a natureza violenta da modalidade por meio de debates internos.


UFC NA TELA DA GLOBO



  • ReproduçãoÁrbitro do UFC, brasileiro Mario Yamazaki (ao fundo) dá aula de MMA para o Globo Esporte

  • ReproduçãoGalvão Bueno já narrou duas edições do UFC e criou o termo "gladiadores do terceiro milênio"




Logo após fechar com o UFC do executivo Dana White, a Globo traçou estratégias de explicar o MMA para a parte do público da emissora que não tinha familiaridade com a modalidade. Além disso, o limite de violência que poderia ser usado em inserções nos telejornais foi discutido em reunião de executivos do jornalismo.

"Foi uma ideia minha. Existia a preocupação de ser didático, mostrar que não é uma selvageria. Existem regras, árbitros, proteção aos lutadores. A ideia não é matar o cara. Existem regras a ser respeitadas. O José Aldo foi comemorar com o público e acabou advertido. Não é um circo romano", diz Cesar Seabra, diretor de Esporte em São Paulo, em menção a incidente do UFC Rio no final de semana passado.

Ainda nos dias que antecederam a segunda edição do UFC no Rio de Janeiro, matérias explicativas sobre o MMA foram levadas ao ar em programas da Globo. A emissora inclusive escalou o popular campeão Anderson Silva como uma espécie de professor, responsável por transmitir noções básicas de seu esporte.

Até o telejornal mais conservador da grade reservou minutos no horário nobre para ensinar golpes e regras da modalidade, em esforço de divulgação da transmissão do UFC Rio, que teve Galvão Bueno no comando. No sábado, dia do evento, o Jornal Nacional optou pelo didatismo especialmente para desvincular o MMA do vale-tudo, termo de sua origem que insinuava que qualquer golpe era permitido.

SEM SANGUE, MAS PRIVILÉGIO À "ARTE DO GOLPE" NA TELA

No mesmo debate em que reconhecia uma necessidade de ser didático com o novo produto do esporte da emissora, na apresentação a sua audiência, a Globo tratou de pensar os limites da violência, pelos menos em relação às inserções de UFC nos telejornais da grade.

Chegou-se a um consenso de que deveria se evitar os instantes mais brutos das lutas, filtrando cenas de sangue e estrangulamento, por exemplo. No entanto, apesar das limitações, os executivos de esporte da emissora entenderam que não poderiam ignorar totalmente a essência do golpe vencedor de uma luta, daquelas eventualmente mencionadas em reportagens.

"Tivemos uma reunião para isso. As pessoas viam o MMA no canal Combate, no Sportv, mas na Globo ninguém tinha visto. Precisávamos ser didáticos. Queríamos mostrar os tipos de golpes, de onde eles eram oriundos, de qual arte marcial. Mostrar até onde se pode chegar. Fizemos materiais deste gênero para o Jornal nacional, para o Globo Esporte. A gente tenta evitar o sangue. Mas ao mesmo tempo não pode ir contra a arte do golpe. Queremos mostrar a arte do golpe em si, mas sem o sangue", afirma o diretor de Esporte em São Paulo.

A responsabilidade na filtragem da violência é mais reforçada para a produção dos telejornais diurnos. Após o UFC 140, por exemplo, quando a emissora já havia entrado no segmento, o Globo Esporte evitou exibir na hora do almoço cenas da fratura de Rodrigo Minotauro e detalhes do estrangulamento sofrido pelo brasileiro Lyoto Machida em luta de título contra o norte-americano Jon Jones [dezembro passado, no Canadá.

Na oportunidade, o apresentador Tiago Leifert manifestou ao vivo para sua audiência da edição paulista do programa que o Globo Esporte evitava propositalmente as cenas mais fortes. Na última terça-feira, em evento de lançamento de novidades da atração, o jornalista reforçou o conceito sobre como abordar adequadamente o UFC na hora do almoço.

"Existe a preocupação de fazer as pessoas entenderem o esporte. E não dá para colocar sangue ao meio-dia e meia. Esse excesso a gente tem que tirar. Tanto que qual é o horário do UFC nos Estados Unidos? É late night (tarde da noite), e geralmente as pessoas assistem através do pay-per-view. Não dá para bem na hora do almoço, com as pessoas comendo arroz e feijão, colocar sangue", declarou Leifert.