Juremir Machado da Silva

Ajuda gratuita

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Um colunista deve prestar serviços ao leitor.

É sua obrigação praticar um pouco de autoajuda. Eu faço isso. Sempre tento me ajudar. Há quem se irrite quando eu escrevo “eu”. Quer dizer, quando escrevo sobre mim. Que falta de sensibilidade. Além de ser o assunto que mais domino, tendo me tornado um especialista em mim, sei, desde que o li o poeta Jean-Arthur Rimbaud, que o eu é um outro. Vejo isso todos os dias: quando me olho no espelho, não me reconheço. Quase sempre me acho melhor no espelho. Eu sou muitos. Sou cada leitor.

Como se sabe, só pode ser universal quem fala da sua aldeia. Falo de mim. Mas não deixo de dar conselhos para o meu público sedento da minha proverbial sabedoria. Já dei dicas consideradas decisivas para a humanidade: tome água todos os dias (e banho), não faça xixi na tampa do vaso (ou limpe). Tenha um passatempo. Não aposte tudo no trabalho.

Em todo caso, quando estiver trabalhando, tente se divertir bastante.

Todo ser humano precisa de passatempo. O passatempo também é conhecido por hobby. Assim como encontro para um trago no final da tarde é happy-hour. Um passatempo é um ritual, algo que se repete regularmente e que tem regras, alguma pompa e, de preferência, algum mistério. Dizem que a maçonaria tem um segredo. Parece que o segredo da maçonaria é que não há segredo algum. Não importa. Há o ritual. E o passatempo. No passado, com as jornadas de trabalho de 16 horas diárias, com as guerras e com baixa expectativa de vida, os passatempos eram menos importantes. Quase todo mundo morria cedo e cansado. Mesmo assim, havia muitos rituais e passatempos. Foram os nossos antepassados que inventaram as coleções e as pescarias. O pescador politicamente correto pesca o peixe e o devolve. Coloca um anestésico no anzol. Só quer o ritual e o passatempo.

O grande ritual passatempo de hoje é o futebol. Torcer exige aplicação, roupas e gritos.

Outro passatempo ritualizado é a política. Muito aposentado ou com a vida resolvida, tipo o banqueiro Henrique Meirelles, entra na política. É um jogo. Tem o momento de mexer as peças no tabuleiro, fazer alianças, destruir oponentes, avançar casas, conquistar votos e gritar “ganhei”. Pode-se obter aplausos, reconhecimento e poder. Há os que entram na política por interesses. Há os que entram por não saber fazer outra coisa. E há os que entram para jogar. Um santo remédio para muita gente é ser senador. Quase todos senador morre velho. O Senado é uma casa ritual, com pompa, circunstância e vocabulário próprio.

Mais ou mais como uma academia de letras. O único inconveniente é estar situado em Brasília.

Não fosse isso, eu recomendaria o Senado em lugar de pescaria ou coleção de canecas. Ser senador alivia várias doenças.

Já ouvi dizer que ser senador é um santo remédio para hemorroidas.

Tenho dúvidas.

Santo remédio para quase tudo é ritual e passatempo.

A sabedoria da existência não é comer o churrasco.

É prepará-lo.

Dentro de dez anos, começarei a frequentar raves e bailes da terceira idade.