É incrível como as pessoas provocam em nós reações espontâneas. Algumas, mesmo que gostemos delas, acionam em nós um mecanismo automático de defesa. É como se nos disséssemos silenciosamente: atenção, perigo. Tememos, apesar de uma boa relação, um elogio torto, uma pegadinha, uma observação ácida demais, um comentário que ficará nos torturando por horas, dias, meses ou até anos. Outras pessoas não nos despertam nada. Chegam e partem sem produzir qualquer reação. Nós também funcionamos assim para os outros. Noto que alguns nem percebem a minha passagem. Sou invisível para eles. Outros, movimentam o corpo numa atitude de proteção. Normal. Bom mesmo é quando uma pessoa nos causa uma alegria natural. A simples vista da pessoa nos desarma.
Eu sentia uma alegria natural ao ver um amigo, infelizmente já falecido, chamado Décio Freitas. Brigamos muitas vezes. Isso jamais afetou a alegria espontânea que eu sentia ao vê-lo. Décio era um homem de teses. Jamais saía de casa sem uma boa tese para defender durante alguns minutos ou algumas horas. Podia defender uma ideia num dia e contrário em outro, sempre com o mesmo brilho e com uma boa justificativa. Não se contradizia. Evoluía. Era um deleite jantar com ele. Aprendia-se muito. Às vezes, ela estava implicante. Nunca ficava, porém, qualquer magoa duradoura das conversas. Um grande “causeur”. Está moda falar em “causar”. Nada de novo para os franceses. O “causeur” é bom de conversa, fala, faz falar e produz muita falação. Conversar faz bem à saúde. Sem moderação.
Meu mestre Michel Maffesoli é assim. Sempre gentil, afetuoso, atento ao que está ouvindo, preciso nas observações que faz. Michel anda sempre de gravata borboleta. Por trás desse aspecto formal está um homem de peito aberto, firme nas suas convicções, mas sensível ao diálogo. Aprendi com ele o respeito radical à diferença. Conheço poucas pessoas tão antenadas para o diverso quanto ele. Pega no ar. Cada vez me convenço mais de que Michel Maffesoli é o grande pensador da nossa época. Traduz o vivido com palavras que colam como tatuagem. Sabe que precisamos pertencer a alguma coisa.
Vou fazer uma confissão. Vez ou outra, precisamos abrir o coração em público. Telmo Flor, diretor de redação do Correio do Povo, meu amigo de faculdade, dos tempos do Mazza, bar na Bento Gonçalves onde mudávamos o mundo sem saber que estávamos mudando era o nosso pequeno mundo, e das viagens de T1 até a Assis Brasil, tempo suficiente para duas ou três revoluções totais, me provoca essa alegria espontânea até hoje. É ver o Telmo e minha mente se ilumina. Parece dizer “lá vem um cara do bem, a conversa vai ser boa”. Sempre é. Admiro a sagacidade e a inteligência do Telmo. Sabe tirar de cada um o melhor que cada um pode dar. Cultiva a tolerância sem se gabar.
Por que estou falando isso? Sei lá. Estava parado, olhando o Bom Fim pela janela e me vieram essas constatações. Vi a silhueta de um velho amigo na rua e pensei: “Estamos na luta”. Quantos já partiram? Outro dia, foi o Nico Noronha, ótimo jornalista, gente boa, meu colega quando eu entrei no jornalismo. Deixei a janela. Quando vi, já tinha escrito. Precisa motivo para dizer que a gente gosta de alguém? Não.
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O Gre-Nal traz alegria natural. É coisa nossa. O Grêmio atualmente tem melhor time, valores individuais superiores, como Luan, Arthur e Éverton, e um técnico afirmado. O Inter está em fase de reconstrução. Ontem, o Grêmio massacrou no primeiro tempo. Poderia ter feito três. No segundo tempo, o Inter mandou no jogo. Um bom sinal: Odair mostrou que pode crescer como treinador. Fez a leitura correta do jogo, mudou e bloqueou o adversário. Brinquei que foi nó tático: escolha tática de um treinador que impede o oponente de praticar seu jogo. Como foi só no segundo tempo, meio nó tático.
O clubismo é uma das piores formas de fanatismo da nossa época. Distorce os acontecimentos em função da paixão por um clube. Cega. É uma espécie de ideologia ingênua, mas perigosa. Traduz uma necessidade de pertencer radicalmente a alguma coisa que se afirme num "nós" contra "eles" sem limites. Toda vez que por clubismo um torcedor diz que o outro "não entende nada" afirma a sua limitação intelectual e o seu desejo de uniformização. A magia do futebol está em que só não entende quem não quer ou não acompanha. Jamais quem acompanhasse e não entendesse. Profissionais e especialistas acertam e erram tanto quanto os simples torcedores, que muitas vezes também são, mas não todos. O futebol é maravilhoso na sua irrelevância. Depois de 30 anos, primeiro como repórter cobrindo o Grêmio, depois como debatedor e comentarista esportivo em programas de rádio e televisão, aprendi que sem paixão o futebol fica chato. Com paixão demais, fica pobre. É o paradoxo da paixão.
Conclusão 1: o torcedor que acusa o outro de não entender é o que menos entende. Mesmo assim, entende. Só não consegue entender o que o outro vê por estar com o olhar encoberto pela sua tese ou sua paixão.
Conclusão 2: tem torcedor que coloca a paixão acima da realidade. Há quem coloque a tese acima do fato.