Amores naturais
Nada é natural. Tudo é cultural. Quer dizer, tudo que é social. Vejamos isso. Alguém me diz: nós, gaúchos, amamos nosso Estado mais do que os outros amam os seus Estados. Somos os únicos brasileiros a saber o hino estadual. Não deixa ser um argumento com alguma lógica. Mas estou convencido de que é “natural” amar o Estado onde se nasce. Amor de infância. Todos os brasileiros “normais”, ou sem alguma razão específica para o contrário, amam seus Estados. Dá para dizer que um baiano ama menos a Bahia por não saber cantar, se existe, o hino baiano? Um pernambucano adora Pernambuco. Até os paranaenses amam o Paraná, que nos parecem tão insosso. Os cariocas são loucos pelo lugar onde nasceram. Os paulistas são apaixonados pelo torrão que lhes cabe. Por que essa “nossa” tendência de querer ser mais? Querer ser aquele que mais ama o seu Estado, mais mostra o seu amor!
Pode-se amar muito o Estado natal e não se saber uma palavra do seu hino. Pode-se simplesmente não se gostar de hinos. Eu não gosto muito. São quase todos, claro, marciais, como bons produtos de uma época de guerras, e exagerados. Eu não me oporia a trocar de hino nacional se chegasse a considerar superado o imaginário do hino vigente. Pode-se amar o Rio Grande do Sul e não se gostar do hino herdado dos farroupilhas. Pode-se adorar o Rio Grande do Sul e se criticar a Revolução Farroupilha. Pode-se também, obviamente, amar o Rio Grande do Sul através da Revolução Farroupilha e de algumas tradições. O problema, se problema há, está em tentar se estabelecer uma relação mecânica, necessária e irrefutável entre amar o Rio Grande do Sul e defender a Revolução Farroupilha. Acusam-me de não amar o Rio Grande do Sul. Amo. Muito.
Amo mais ainda a verdade. Ou aquilo que se pode acreditar que seja a verdade. Ou aquilo que, sendo uma versão, possa me convencer como verdade. A identidade é complexa. Sou gaúcho. E brasileiro. A quem devo amar mais? Ao Brasil? Ao Rio Grande? Sendo gaúcho, sou brasileiro. Amo ser gaúcho brasileiro. Não gostaria de ser gaúcho sem ser brasileiro. Não estou falando do passado. Antes de tudo, amo a humanidade. Fronteiras e identidades são construções culturais, provisórias e até certo ponto artificiais. Amamos ou odiamos aquilo que está mais próximo de nós. É natural. Ou seja, faz parte das nossas culturas. O Estado-nação é uma invenção histórica, na escala planetária, recente. É bastante provável que desapareça no futuro, substituída por formas de organização mais amplas, menos restritivas e, quem sabe, mais capacitadas para bem acolher todos os homens.
Bem entendido, isso nada tem a ver com o comunismo. A União Européia é uma modesta tentativa de superar limitações do Estado-nação. O que dizer de unidades de uma federação? São divisões administrativas e históricas. São também espaços de afeto e imaginário. Nossa casa. Por que amaríamos mais a nossa casa do que os nossos vizinhos a deles? Não acredito nisso. Estive no Maranhão na semana passada. O Maranhão é pobre. O Maranhão é lindo. Quase todo maranhense quer morrer no Maranhão. Natural. Ou não?