Juremir Machado da Silva

Andando pelo Brasil

Suave Aracaju

Todo ano eu preciso andar pelo Brasil.

Estamos em Sergipe. Gosto de cidades como Aracaju. Curto essa dimensão interiorana em que uma espécie de preguiça voluptuosa embala cada gesto sem impedir que as coisas aconteçam, as coisas essenciais como viver, amar, passear, sorrir, trabalhar. O rio escorre langorosamente para o mar e a brisa sopra com doçura, amainando o calor de 30 graus sob o sol quase inclemente, estremecendo saias, mexendo cabelos, sacudindo cortinas. Gosto desse tipo de paisagem, entre rio e mar, sombreada por coqueirais, cercada de mangues.

Alguém me falou: por que não a Europa? Faço como os europeus: procuro o nordeste do Brasil. Adoro ver o povo nas ruas com sua alegria indestrutível contra tudo e todos, especialmente contra aqueles que nos governam e saqueiam. Nada como almoçar em mercado público, comer com um rei e pagar como um camponês. Sei lá, não me ocorreu outro termo. Amo essas pequenas provocações: “moça virgem” (sorvete de tapioca com banana e canela), “veia fogosa” (sorvete de tapioca com frutas vermelhas e calda de chocolate e morango). Vibro com essa espontaneidade. A cidade festejando os visitantes como um cão que recebe o seu dono. Não é uma boa imagem? Ofende o anfitrião? Não acho. Não acho tanta coisa. Que importa o que acho se a vida segue?

Aracaju é dessas cidades que pessoas como eu – esquisitas, difíceis, mirabolantes, simples, autênticas? – olham e dizem sem ninguém perguntar: “Eu moraria aqui”. Por quê? Justamente por esse jeito malemolente, sincero, aparentemente comportado: ruas limpas, orla sedutora, espaço para crescer, mas sem que seja fundamental crescer demais, canto de pássaros por toda parte, velhos prédios imponentes (alguns precisando, é verdade, de restauração), praças que lembram chácaras, sombras fartas que dispensam máquinas de refrescar.

É em lugares como Aracaju, ou em praias mais desertas do entorno de cidades assim, fagueiras, sensuais, morosas, que arejo minha mente depois de intensos combates. Desembarco combalido, exausto, saturado, enojado, farto, descrente na humanidade e aos poucos me recupero. Chego a confundir o céu com o mar, a existência com o ar, os sucos de frutas com a frutificação do gosto pela vida. O turismo ainda não devorou Sergipe. Fará isso com o passar do tempo. Melhor aproveitar.

Uma das minhas alegrias é caminhar a perder de vista pelas areias dessas praias que parecem não ter fim. Olhar para trás e ver meu rastro passageiro fingindo ser definitivo num tempo em que definitivo é somente o último suspiro. A gente tem a sensação de ser tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão privilegiado: a natureza entrando pelo corpo como uma injeção de ânimo, um aroma, um bálsamo, uma dádiva, uma embriaguez, um poema. Sim, a natureza me deixa piegas.

Suave cidade de Aracaju, obrigado. Outro dia, se a preguiça me permitir, falarei dessa sensação curiosa é que andar no São Francisco. Não tenho pressa. Estou aprendendo rapidamente a andar mais devagar. Sei que vai durar pouco. Que importa? O momento é uma eternidade.