Conheço um cara que para justificar a sua inação, espaçosa e sem constrangimentos, diz a propósito de tudo e nada: “Foi um ano atípico”. Mas é claro que foi. Não se discute. Vai completar um ano que não pego um ônibus, não vou ao cinema, não entro num restaurante, não saio de Porto Alegre, praticamente não ultrapasso os limites do meu bairro, salvo para ir a consultórios médicos, depois da covid, tive prostatite, do vírus à bactéria. Eita! Um ano atípico. Sem tomar um copo de água fora de casa, sem viagem, sem avião, sem trabalho presencial, sem abraço, sem estádio de futebol, onde já ia raramente, sem o típico.
Não foi assim para todo mundo. Quem atua nos serviços essenciais, continua na linha de frente dos riscos pelo nosso bem e alimentação. Quando digo “eu”, neste caso, digo muitos. Não me gabo. Universalizo o singular como modo de reflexão. Talvez por isso me choquem as reportagens de televisão sobre veraneio. Como se o ano não fosse atípico. Vamos para a praia que o sol já vem. Sou covarde. Não vou a lugar algum. Um amigo fez esta observação: “Falando assim até parece que o vírus está à espreita por toda parte!” E não está? Eu o pressinto em todo lugar. Leio que não há relação provada empiricamente entre isolamento e diminuição dos casos de contaminação. Uma pergunta me assalta: por que então a Europa faz lockdown? Estão por fora da coisa?
Num ano típico quantos filmes eu teria visto nos cinemas? Quantos shows no Araújo Vianna? Quantos churrascos no Barranco? Quantos abraços? Quantas viagens? No meu aniversário, para diminuir a saudades da normalidade, a Cláudia e a Tieta fizeram a tainha assada que antes comíamos em sextas-feiras no Gambrinus, no Mercado Público, onde só pretendo voltar depois que a vacina se espalhar como uma bênção. Compreendo o desespero dos empresários, pequenos e grandes, que veem seus negócios escorrerem entre os dedos, dizimando empregos e ganhos. Só enxergo um jeito: renovar e ampliar ajudas governamentais. Ano atípico, medidas atípicas. O mundo deveria estar quebrando patentes, municiando laboratórios e produzindo vacinas em regime de guerra.
Deveria existir uma meta global: vacinar a população mundial até o final de 2021. Quem tem mais, ajuda quem tem menos. Por enquanto, quem tem mais compra mais para si. E quase todos vão às compras como se operassem em tempos normais. Quem tem medo da vacina? Quem tem interesse em disseminar o medo à vacina? Na minha capacidade intelectual reduzida, jamais negada, estimular o medo à vacina só tem uma explicação: burrice. Não é uma hipótese sofisticada. Não será testada. Ficará como um desabafo. Há outra hipótese: oportunismo. Mas aí já é má-fé. Se queremos de volta a normalidade, com o seu cortejo de coisas típicas, só temos um caminho: vacina. Pode ser que remédios sejam descobertos para livrar infectados do maldito vírus. A ciência trabalha na produção de soros e de anticorpos. Eu amo a ciência. Tenho vontade de distribuir estátuas para médicos e cientistas. Seria atípico. Minha utopia: o dia em que andaremos sem máscaras e sem medo.
Num ano atípico, Congresso Nacional renova a típica política do é dando que se recebe.