Juremir Machado da Silva

Aod Cunha para a Academia Brasileira de Letras

Aod Cunha para a Academia Brasileira de Letras

Encontrei um candidato para a vaga de Moacyr Scliar na Academia Brasileira de Letras.
É o Aod Cunha, o maior ficcionista do Rio Grande do Sul das últimas décadas.
Aod é autor de um enredo de ficção muito bem-sucedido: o déficit zero do governo Yeda Crusius.
Como toda boa obra literária, nunca saiu do papel.
Ao final do governo, já sem Aod, alardeou-se que sobravam mais de três bilhões em caixa.
O atual secretário da Fazenda, Odir Tonollier, garante que o dinheiro vinha de depósitos judiciais e que o déficit zero era déficit de investimentos sociais.
Certo é que Aod se consagrou com o seu polêmico best-seller Déficit Zero.
Quando saiu do governo, cansado de tanto sucesso, foi para escolher entre o Banco Mundial e uma universidade estrangeira. Pelo jeito, esta última foi de curta duração.
Aod voltou. Escreveu uma curta página, sem grande repercussão, na Unimed.
E agora é CEO do Internacional.
Ou será o inferno?
Autor de ficção em alta, Aod resolveu atacar num novo gênero: suspense, terror e folhetim.
A trama novelesca é de arrepiar. Colorados batem queixo de pavor. Ouvem-se pios ao amanhecer.
Tremem as estrututuras do Beira-Rio. Gemem os pássaros no alto das árvores.
A mídia atira-se no chão de tanto medo.
O terrível dilema é este, implacável, definitivo, incontornável, uma espada sobre a cabeça colorada: ou o Inter faz uma parceria com a Andrade Gutierrez para a reforma do Beira-Rio ou a Copa do Mundo vai parar no Grêmio.
Ganidos, latidos, lágrimas, choro convulsivo, arrastar de correntes.
É pegar ou ser devorado pelo monstro tricolor.
Os velhos lobos britistas e os jovens lobos yedistas têm uma ideia fixa: fazer uma parceria com uma empreiteira.
É ideológico. Meramente ideológico.
O negócio é ceder a orla do Guaíba, o belo terreno da FASE, o escambau. E o Beira-Rio.
Nada pode escapar. Se fosse no Rio de Janeiro, tentariam construir belos edifícios, em parceria com uma empreiteira, no Aterro do Flamengo. Para que tanta área livre? Para que tanto cenário? Para que tanto parque?
O negócio é concreto.
Paulo Odone já ajudou a Grêmio a encontrar a sua empreiteira, que começou muito bem, tratando os operários como párias, morando em pocilgas para construir camarotes, o que paralisou as obras.
O Inter não poderia ficar para trás.
Como todo bom enredo de novela, de folhetim, precisa ter vilão.
E o povo precisa participar.
O vilão agora é Pedro Affatato, que até semana passada era do grupo que ainda dirige o Inter, foi candidato à presidência do clube, é engenheiro, dono de empreiteira, é parece entender do riscado.
Affatato não serve mais como contraponto.
Ele garante que o Inter pode fazer o negócio sozinho.
Diz que sozinho o Inter gasta uns 150 milhões. Com a Andrade Gutierrez, ficaria tudo por 270.
Uau! Que bela economia!
Segunda ele, o Inter deixaria de arrecadar uma babilônia por ano.
Uivos, vaias, berros. Affatato não tem mais legitimidade.
Perdeu a eleição. Está ressentido.
O telespectador adora argumentos profundos assim.
Mário Sérgio Martins diz o mesmo.
Na coluna do Hiltor Mombach deste sábado diz muito: "A proposta da Andrade Gutierrez nos consome 100% das receitas das nossas áreas vips (suítes, camarotes, skybox. cadeiras vips) por 20 anos. Ou seja, uitlizarão nosso patrimônio e força da marca Internacional para comercializar áreas Vips e não entrará nenhum dinheiro para o clube"
Uau!
Rangem dentes pela cidade.
Como ele ousa contestar o Aod?
Quem é ele para contrariar o Aod?
Como pode dizer o contrário do Aod?
Os céticos riem. Aod diz que o Inter está quebrado.
Ou a Andrade Gutierrez ou um mico do tamanho do Mazembe.
É nova escolha de Sofia, estilo Aod Cunha.
A ficção já nasce filme de terror.
A mídia amiga compra o enredo inteirinho. Aod é o cara.
O povo ri dos quatro ou cinco que se opõem à Andrade Gutierrez.
Por que mesmo a Andrade Gutierrez?
Por que não uma concorrência para saber quem oferece o melhor projeto?
As más línguas dizem que um dos oponentes, sabe-se lá qual, empregou uma amante no Beira-Rio.
Boa novela precisa de sexo. E de moralismo barato. Ainda que, mesmo pouco recomendável e talvez um tanto perigoso, não se trata de emprego público. Deve ser apenas para apimentar.
Uma boa novela precisa de muitos finais com participação popular. É a interatividade.
Imagino um final retrô (estilo anos 1960, gênero Rede da Legalidade). A galera vermelha na frente do Beira-Rio, em paz com Celso Roth, gritando como se fosse comandada por Brizola contra os golpistas:
– Fora Aod! Fora Luigi! Entreguistas!
Outro final possível, mas chavão, seria imitar o São Paulo.
Não tem dinheiro para fazer a reforma? Não faz.
Não vai ter Copa do Mundo? Azar.
Vai para o Grêmio? Que fazer!
Desde que comecei a falar disso, já fui ameaçado de processo nas alamedas da vida.
Vão me processar pelo quê? Por crítica literária indevida?
Os fãs do ficcionista Aod Cunha – o novo messias, o salvador, o saneador, o gênio da lâmpada yedista, o autor capaz de rivalizar com Paulo Coelho em capacidade ficcional – sonham em vê-lo receber o Nobel de Economia.
Eu sou mais o da Literatura. E Academia Brasileira de Letras já!