Um prêmio
A contradição faz parte da condição humana. Não nego as minhas. Duvido sempre um pouco das premiações. Salvo quando sou premiado. Que o argentino Jorge Luís Borges não tenha recebido o Nobel da literatura me faz desconfiar eternamente da lisura das escolhas da Academia Sueca. O mesmo vale, em termos contemporâneos, para o francês Michel Houellebecq. Há quem prefira se lembrar do norte-americano recém-falecido Philip Roth. Eu até gostava dele, mas muito mais do seu compatriota Tom Wolfe, autor do espetacular “A fogueira das vaidades”, acusado por muitos de jornalismo, ou seja, de ser pouco literário.
Hoje, eu deveria ir a São Paulo receber o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte por meu livro “Raízes do conservadorismo brasileiro: a abolição na imprensa e no imaginário social” (editora Civilização Brasileira). A cerimônia acontecerá no teatro Sérgio Cardoso. Entre os agraciados de 2017 estão Chico Buarque, na música, por “Caravanas”, e, no cinema, João Moreira Salles, por “No intenso agora”. A APCA é uma entidade prestigiosa. Não concorri ao prêmio. Nunca encontrei os jurados. Não fiz campanha. Ganhei na categoria “ensaio, teoria, crítica literária, reportagem”. Nada mal para um livro que vai alcançar a quarta edição sem qualquer resenha nos jornalões e revistas dos cariocas e dos paulistas, os veículos mais bairristas da face da terra, aqueles que matam quem os critica.
Em 2014, recebi outro importante prêmio nacional, o da Bienal do Livro de Brasília, por “Jango, a vida e a morte no exílio” (L&PM), outro livro de ótima vendagem e pouca ou nenhuma resenha na mídia produtora de reputações. Não irei à entrega do prêmio. Tenho muitos compromissos de trabalho em Porto Alegre, inclusive uma banca de qualificação de mestrado. A mídia central não admite a minha mania de desmontar os seus mitos. Morreu o jornalista Alberto Dines. Em “1964, golpe-midiático-civil militar”, eu provei não só que ele apoiou fervorosamente o golpe que derrubou Jango como foi admirado pela ditadura até pelo menos 1968. Essa parte sumiu da sua biografia nos necrológios midiáticos que o transformaram em herói da resistência ao regime implantado com ajuda dos Estados Unidos e apoio da imprensa.
Ofereço meu livro sobre como os jornais cobriram a abolição da escravatura e o meu prêmio aos grandes construtores do Brasil, os negros, aqueles com os quais nunca saldaremos nossa dívida histórica. Trabalhei durante quase cinco anos na pesquisa que resultou nessa obra apaixonada. Eu poderia até pendurar o teclado depois dela. Dei a minha contribuição. Não farei isso. Continuarei a escrever por me sentir incapaz de fazer outra coisa com o mesmo prazer. Não busco os prêmios, embora até, sem falsa modéstia, os mereça. Outro dia, Mario Maestri, um dos grandes historiadores do Brasil atual, chamou meu livro “História regional da infâmia, o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras” de “pequena obra-prima. Foi um dos maiores prêmios que já recebi. Ser premiado junto com Chico Buarque me honra. Se ele não for, claro, a sua presença será mais notada do que a minha.