Em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas suicidou-se.
Em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou.
Leonel Brizola, governador do RS, comandou a resistência contra o golpe militar que pretendia impedir a posse do vice-presidente João Goulart como presidente da República. Formou-se a Cadeia da Legalidade, com a Rádio Guaíba na cabeça. O resto é história. Mudamos? Aprendemos? Temos um novo mundo ou, por trás das aparências, ainda reinam os fantasmas?
Temos nossos clichês de estimação. Quando o muro de Berlim caiu, gritamos: o mundo nunca mais será o mesmo. Em muitos aspectos, porém, a realidade parece desmentir nossa eufórica previsão. Como se sabe, os fatos, que alguns pensadores negam existir por questões complexas de epistemologia, palavra que exigiria uma coluna inteira para definir, costumam atrapalhar as teorias. Quando as torres gêmeas de Nova York foram destruídas por ataques terroristas, em 11 de setembro de 2001, voltamos a berrar no calor do acontecimento: o mundo nunca mais será o mesmo. Outra vez, os fatos discordaram. Como são teimosos esses fatos!
Outro clichê que sempre adotamos é o de que aprendemos com as crises. No meio do pavor, alguém anuncia: há aspectos positivos. Fica difícil negar. Por educação e vontade de acreditar. A pandemia do coronavírus já acionou nossos dois clichês mais caros: o mundo nunca mais será o mesmo; e estamos aprendendo com a crise, que tem pontos positivos. Quais? Não fosse mais um clichê, eu diria: eis a questão. Isso me obrigaria, para ser menos trivial, a revisitar a obra de Shakespeare, o que tornaria esta crônica talvez um tanto pedante. Como acredito, por influência de Pascal e Edgar Morin – estou me atolando no pedantismo que pretendia evitar –, que a parte está no todo, que está na parte, tomo-me como parte do todo, que também estaria em mim. Ia dizer está, mas a modéstia me obrigou a usar uma relativização.
O que tenho aprendido com a pandemia? Que aspectos positivos ela me apresentou? Groucho Marx, o comediante americano, aquele que não aceitaria entrar em qualquer clube que o admitisse como sócio e que não era parente do Karl, fique tranquilo o leitor anticomunista, que também os tenho, pensava de uma maneira interessante. Exemplo: “Se acredito na vida após a morte? Não sei nem se acredito na vida antes da morte! Acho que acredito na morte durante a vida”. Talvez seja isso que tenha aprendido com a pandemia quem teve falta de ar. Groucho morreria de pneumonia. Teria sido uma piada de mau gosto do destino? Eu não acredito em destino. Acho que fui destinado a essa descrença.
Aprendi com o coronavírus que não se pode brincar com a loteria da vida. Fui um dos primeiros no Brasil a contraí-lo. Uso esse termo e já fico arrependido. Falava-se contrair núpcias. Por que mesmo? Seria uma concepção doentia do casamento? Não me casei com o vírus. Fui atropelado por ele. No auge da infecção, pensei que poderia ser melhor depois de curado. Em alguns pontos, melhorei. Em outros, contudo, meus péssimos reflexos insistem em se manifestar. Não sou bom exemplo para quem quer seja. Ao menos, que eu saiba, felizmente ninguém quer que seja. Poderíamos sair desta pandemia menos egoístas, mais solidários, menos consumistas, mais amistosos, menos propensos à crises de ira, mais cooperativos, menos competitivos, mais amorosos, menos radicais.
Nas redes sociais, que é onde estamos autorizados a viver enquanto não descobrem uma vacina contra o vírus, salvo a russa, que desperta desconfiança nos cientistas e resistência nos anticomunistas de carteirinha, nada de positivo parece estar acontecendo. A guerra continua. O discurso otimista, entretanto, não cessa. Tem lido esta frase: “O pessimista senta-se e lastima-se, o otimista levanta-se e age”. De quem é? Autor desconhecido. Um otimista que deu azar. O melhor que fez ficou sem a sua assinatura. Morreu no anonimato. Não vem ao caso. Estamos aprendendo muito sobre os valores essenciais. E quem sabe sobre os limites frágeis da nossa memória. Tudo passa.
Há 25 anos, o grande historiador britânico Eric Hobsbawm alertou para os dois grandes problemas contemporâneos: a ecologia e a desigualdade social. Tudo continua como antes no quartel de Abrantes. Ou pior. A Amazônia queima para não nos deixar mentir. Hobsbawm não era confiável? Era comunista. Só que trabalhava com fatos. Jornalistas e historiadores têm mania de fatos. Historiadores são jornalistas que cobrem o passado. Antropólogos, quando fazem etnografia, são repórteres em campo produzindo grandes reportagem. Querem descrever, não julgar. O positivismo da neutralidade volta pela porta dos fundos?
Michel Maffesoli, sociólogo da pós-modernidade, escreveu: “A epidemia atual é uma boa ilustração de que chegou a hora de uma mudança fundamental ou de paradigma, o que sempre anda de mãos dadas com o que Vilfredo Pareto chamou de ‘circulação das elites’. Essa crise de saúde não deve nos fazer esquecer de sua magnitude maior: crise civilizacional”. Qual? Crise da fé absoluta no poder da razão e do progresso. Aprendemos com a pandemia que sempre se pode regredir. As pandemias não são realidades exclusivas da Idade Média. Nem do começo do século XX. A grande novidade é que se um dia se pode batizar uma doença de “gripa espanhola”, quando era americana, hoje chamar a pandemia do coronavírus de “gripe chinesa” é pura ideologia. Não passa. Enfim, aprendemos sobre a força das palavras e dos símbolos. Mas aprendemos a ser diferentes? Precisamos de uma nova Legalidade?