Juremir Machado da Silva

Aprender a ver

Aprender a ver

Em meu livro “Aprender a (vi)ver” eu tratei da importância de saber ver para saber viver. Ninguém me levou a sério. Um maldito não pode ser positivo. Retomo os meus argumentos com um novo viés. Olhar pode ser muito fácil. É o que fazemos com as paisagens. Passamos os olhos sobre elas. Mas dificilmente levantamos o véu de nuvens, de bruma, de sombra ou de sol que as encobre. É muito comum escutar alguém dizer que se emocionou diante de um espetáculo da natureza. Há algo de verdadeiro nisso. Não se mente sobre algo tão impalpável e pessoal. Raramente, contudo, se diz toda a verdade com esse tipo de declaração. Não sabemos olhar em profundidade. O belo acaba por nos confundir ou simplesmente por passar despercebido.
Por mais brega que seja devíamos fazer cursos intensivos de contemplação do pôr-do-sol, assim como temos aula de fotografia, de alongamento, de direção de carros e de programas de computador. Afinal, já chegamos ao cúmulo de ter instrutor para aprender a pôr corretamente o pé no chão. Ou para aprender a caminhar em perfeita harmonia do organismo com o solo. Quantas vezes deixamos de ir à janela, por indiferença, fitar a lua cheia sangrando acima dos arranha-céus? Quantos crepúsculos perdemos por falta de coragem de fechar o livro, desligar a televisão, interromper o trabalho ou apenas de espiar pelos olhos franzidos das nossas janelas? Quantas vezes perdemos o amanhecer, com seus cheiros, matizes e cores, por incapacidade de crer que é único na sua repetição? Quantas vezes deixamos de admirar a beleza singular do nosso pequeno universo particular por falta de visão de mundo?
Dizem que temos dificuldade para admirar pinturas em museus por falta de cultura e de hábito. Ver é uma atividade complexa da cultura. A ignorância e a sofisticação são aliadas do cinismo. A primeira tem a vantagem de não conhecer a si mesma ou de ser explicada pela falta dos outros. A sofisticação não tem desculpas quando nos afasta da pureza das coisas e impede-nos de perceber, sob os nossos olhos, o que se esconde das nossas vistas e revela-se somente para as lentes sensíveis das nossas almas. Olhamos o mar, as árvores, as montanhas, os corpos, os homens ensimesmados e os pássaros na inconsciência do vôo. Olhamos sem ver. O que não vemos?
Não vemos a aura dos seres e dos objetos. Aura é o espírito das coisas. Uma palmeira tem aura. Um homem tem aura. A vida tem aura. Quase nunca a vemos. Gostamos de falar, não de ouvir. Adoramos opinar, não ouvir opiniões. Perdemos a capacidade de sentir o outro, de esperar o outro, de desejar o outro. Tudo isso nos parece um tanto piegas. E realmente é. Nossa arma contra a impossibilidade de ver é o sarcasmo. Sonhamos em ter tempo para não fazer nada, mas quando conseguimos alguns dias de isolamento, ou de falta de atividades “produtivas”, sentimos tédio. Fazemos da vida uma espécie de esteira em tempo integral.
Olhar não produz necessariamente reflexão. Pode esbarrar na opacidade. Falamos em dar uma “olhada” ou em “passar os olhos”. Ver compromete a totalidade do ser. Quem olha, na melhor das perspectivas, observa. Quem vê, reflete – duplica o que viu. Estamos na era da imagem. Nunca se produziu tanto para os olhos. Porém, mesmo quando sabemos olhar, não sabemos (vi)ver. No Brasil, enxerga mais longe quem fecha um olho. É o agora famoso olho de senador.