Aquele porco do Morin e o busílis
“Aí é que está o busílis”.
Esse era o bordão do policial Rosalvo, em “Agosto”, de Rubem Fonseca.
Já Morin, o infeliz personagem de Guy de Maupassant, no conto “Aquele porco do Morin”, foi mais econômico: “Aí está o busílis”.
Duas coisas igualmente relevantes podem ser concluídas dessa introdução. A primeira é bastante original: em arte, tudo se transforma. O acréscimo do “que”, em “aí está o busílis”, gerando o novíssimo “aí é que está o busílis”, faz de Fonseca um criador e não um reles plagiador. A outra conclusão é ainda mais desconcertante: podemos não ter a menor idéia do que significa “busílis”, mas a palavra já tem lugar garantido na história universal da literatura.
Outra hipótese bastante interessante é a de que Fonseca nunca leu “Aquele porco do Morin”. Ou, se leu, não prestou atenção ao “busílis”. Pode também ter lido, prestado atenção, esquecido e, inconscientemente, retomado o termo quando escreveu “Agosto”. Enfim, pode ser simplesmente um fenômeno de co-autoria. Aí está o busílis. Conheci dois senhores que passaram uma década engalfinhados na “querela do busílis”. Um dizia “aí é que está o busílis”, o outro retrucava “aí está o busílis”. Havia um fosso entre eles tão incontornável quanto o existente entre o islamismo fundamentalista e o Ocidente. Era uma questão de fontes. Não podiam ceder ou perderiam as referências.
A literatura tem as suas polêmicas e as suas questões sem resposta. Capitu traiu ou não? Bentinho era corno ou paranóico? Os homens, em geral, não levam mais de três minutos para concluir que Capitu jogou bola nas costas do otário do Bentinho. Com aqueles olhos de ressaca, só podia ser uma vadia, asseguram. As mulheres hesitam por sabedoria ou corporativismo antimachista. Ainda bem que apareceu um escritor para dar voz à mais mal-falada mulher brasileira. Domício Proença Filho, em “Capitu, memórias póstumas”, trouxe uma versão do que poderia ser a versão dos fatos dada pela principal interessada. Primeira observação depois da leitura: Machado de Assis era um grande fofoqueiro e destruiu a reputação da Capitu. Mas, graças a isso, ela ficou famosa.
A glória sempre tem um preço.
As releituras estão por toda parte.
O filme gaúcho “Anahay de la missiones”, do brechiano Sérgio Silva, fez uma adaptação de “Mãe coragem”, de Bertold Brecht. Uma das releituras mais felizes é pouca comentada: a canção “Geni”, de Chico Buarque.
O brasileiro inspirou-se abertamente em “Bola de sebo”, de Guy de Maupassant, um dos mais famosos contos da história da literatura. Aí está o busílis. Chico Buarque admite? Quantas vezes já lhe perguntaram isso?
Não tenho conhecimento de nenhuma. Como Chico é um homem culto, algo que ninguém duvida, é impossível que não tenha lido “Bola de sebo”. Não faz muito tempo, saiu no Brasil uma seleção de contos de Guy de Maupassant, “As grandes paixões”, o que permite a cada leitor fazer a própria investigação.
Matenho a minha sugestão para a imprensa carioca. Num dia qualquer, no Leblon, Chico Buarque está pedindo um coco para a neta no calçadão. Um repórter de plantão decide interpelá-lo abruptamente: “Geni é uma Bola de sebo tropical? Guy de Maupassant era de um tempo em que os escritores terminavam pobres e loucos.
Hoje, não há razão para tanto.
Aí é que está o busílis. Nunca saberemos se Capitu traiu.
Nem se Chico se inpirou em Maupassant.
Nem Capitu nem Bola se Sebo estão na boca do povo, embora esta última, assim como Geni, tenha posto de quatro um comandante.
Aí é que está o busílis.
O comandante era um porco.
E daí?
Daí nada.
Capitu, Geni e Bola de Sebo nunca saem da minha cabeça.
São mulheres da minha vida.