Armado para matar
capa

Armado para matar

Rodrigo Janot virou o fio

publicidade

 As autoridades adoram dizer que as instituições estão funcionando normalmente. No Brasil, a normalidade institucional é quase tão acima de suspeitas quanto o uso do VAR no futebol até agora. Rodrigo Janot foi Procurador-Geral da República. A presidente Dilma Rousseff seguiu a indicação da guilda do Ministério Público. Aceitou o indicado em primeiro lugar. Rapidamente Janot se tornou famoso por encher a cara durante o expediente. Recorria ao que chamava de “farmacinha”, um frigobar e um cantinho com garrafas de uísque.

      Fora da ativa, Janot descobriu a literatura. Resolveu contar os bastidores do poder que dividiu com os demais notáveis da pátria. Um bom livro, nestes tempos velozes, precisa ter bala na agulha. Janot tinha. Ao menos, é o que ela conta. Surpreendeu o país ao revelar que foi ao Supremo Tribunal Federal armado para matar o ministro Gilmar Mendes. Mais gente teria possivelmente gostado de fazer o mesmo. Mendes meteu a filha de Janot no meio das confusões entre os dois. Pai extremado, Janot teria decidido acabar com Gilmar e matar-se. Aí é que o plano se complicou. Janot diz que engatilhou a arma. Não deu. Mudou de mão. Ficou frente a frente com o desafeto. Era matar e morrer.

      O problema obviamente era morrer. Que coisa mais desagradável: Janot ficou conhecido por ter anunciado o recebimento de uma gravação bombástica que atingiria membros do STF. Ouvida a gravação, era apenas bombinha de São João. Depois dessas novas revelações, o STF tomou providências. Uma pistola de Janot foi apreendida. Um pouco tarde. O alvo do ex-PGR agora é outro: vender livros. A obra, contudo, parece válida: mostra a harmonia entre os poderes ou, mais precisamente, entre os poderosos. Tudo é possível. Em São Paulo, um desembargador, dono de 60 imóveis, recebia auxílio-moradia. Liquidada essa mamata, em troco de aumento para os togados, o Conselho Nacional de Justiça descobriu nova brecha: um auxílio-saúde. O judiciário tem sempre uma arma engatilhada. Só dispara se for legal. Ele decide o que é legal.

      O ministro Marco Aurélio Mello, talvez o mais competente do STF, já contou no Esfera Pública, na Rádio Guaíba, que poderia duelar com Gilmar Mendes, com quem mantém uma relação de inimizade assumida e divulgada. Se fosse o caso, escolheria arma de fogo. Vê-se que Gilmar é muito amado. La nave va. Em São Paulo, desembargadores querem prédio com elevadores exclusivos, restaurante exclusivo, banco exclusivo. Eles têm de medo de quê? Só querem ver o povo na condição de réu ou bedel? Como falta moradia para pobre, judiciário quer casa de rico.

      Rodrigo Janot poderia ter protagonizado um crime de filme: “Assassinato na Suprema Corte”. Faltou-lhe coragem para matar e para morrer. Talvez tenha esquecido de passar na “farmacinha” antes de dirigir-se ao STF naquele dia. Que belo país é este nosso Brasil. O escritor Mario de Andrade, ao voltar de uma viagem ao Nordeste, onde se divertiu, entre outras coisas, “tomando” coco e cocaína, segundo seu biógrafo Jason Tércio, resumiu: “O Brasil é feio, mas é gostoso”.