Armas, o atraso americano
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Armas, o atraso americano

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Latas de ervilha, cerveja, chocolates e armas AR-15.

Tudo num catálogo de vendas de um supermercado dos Estados Unidos.

Um folheto colorido com armas que mancham de sangue a inocência americana.

O absurdo como mercadoria ao alcance dos consumidores vorazes.

Um atentado por semana feito por lobos solitários.

O ataque de Orlando, com seus 49 mortos, é apenas um, mais atroz, entre outros.

Tudo graças a uma emenda à Constituição aprovada em 15 de dezembro de 1791.

De lá para cá certamente nada mudou, salvo a razão e os alvos dos massacres.

Na falta de índios, há gays, negros e imigrantes e quem com eles se mistura.

Fernando Gabeira, comentando o assunto, alega que há menos assassinato por ano nos Estados do que no Brasil. Uns 13 mil por lá contra uns 50 mil por aqui. Somos um país em guerra civil não declarada.

Se as armas não pudessem ser compradas como brinquedos nos Estados Unidos talvez o número de assassinatos caísse para meia dúzia. Qual pode ser o sentido se comprar armas poderosas como quem adquire um caniço para pescar? Quem precisa de granadas para defesa pessoal em Nova York?

Guy Debord escreveu: "o espetáculo não canta os homens e suas armas, mas as mercadorias e suas paixões". Engano do grande pensador: o capitalismo canta os homens e suas armas, pois elas são as mercadorias que fazem das paixões o consumo humano. Que importa se inocentes morrem?

As armas representam o atraso do imaginário norte-americano.

Os espíritos simplórios confundem liberdade e defesa com patologia e ataque.

Depois de cada novo massacre, a arma usada vende mais. Funciona para os fabricantes como um excelente instrumento de marketing gratuito. O bom senso americano, sem equivalente no mundo, exige apenas que, se alguém for carregar a sua arma, que ela esteja visível e sem bala no cano.

Uma precaução sem dúvida letal.

A segunda emenda da Constituição diz que "sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido".

A hermenêutica tem favorecido o lobby das armas.

O mais rápido no gatilho, vence.

A autorização para armar exércitos virou direito inalienável de ter um arsenal em casa.

Como impedir alguém de comprar em toda inocência um fardo de cervejas, um saco de 50 kg de pipoca e armas e munição para dizimar uma boate inteira? Nada pode impedir o direito ao consumo.

Elementar.