Juremir Machado da Silva

As delícias do passado: Getúlio, 1930 e Béatrice Dalle

As delícias do passado: Getúlio, 1930 e Béatrice Dalle

Já não era uma mulher, quando surgiu no hall do Gray Albion, em Cannes, mas uma atriz cult.
Mito para consumo segmentado e, quem sabe, de média duração. Um italiano de cabelos longos não se conteve: “A Betty é azul”. Béatrice Dalle rodou em torno do próprio eixo e sorriu. O siciliano pediu-lhe um olho.
Sem pestanejar, ela prometeu não perdê-lo de vista. Evadiu-se.
Atrás dela, banhado pelo sol de maio, corria uma parte do mundo, com certo atraso, na onda do Mediterrâneo, gingado maneiro de gente do “Midi”. Edgar Morin tratou do cinema e do homem imaginário.
Ali, diante de Béatrice, cabia abordar o imaginário do homem cinematográfico, devastado por musas que se perdem no tempo, nas angústias, nas drogas, mas, acima de tudo, nas imaginações dos que permanecerão distantes, mas tão próximos, numa espiral de imagens iluminadas.
Béatrice Dalle já não era ela, nem sequer era mais Betty Blue, menos ainda uma sombra de si mesma. Não usava chanel nº 5, sorria para rostos escanhoados e brincava de fazer cinema.
E, alors, o que é o cinema? A atriz debruçou-se sobre a brisa do mar e pôs-se refletir, com ar maroto, zombeteira, estranha, incrédula. Não teria resposta? Seria a pergunta exatamente o que era: bizarra?
- Pas du tout, Monsieur. É uma bela questão. Essencial mesmo. Mas a resposta é tão simples, tão fácil, tão sempre a mesma. O cinema é uma mulher. Não o digo por mim, nem por corporativismo, somente por convicção.
Uma mulher? Sim, insistiu, o cinema é feminino, tanto quanto a literatura seria andrógina. Deus inventou o homem, para dele arrancar a mulher, e, cansado da simplicidade da sua criação, gerou a infinita multiplicação da imagem feminina por meio do cinema. E o homem? Mero coadjuvante.
A magia do cinema está na capacidade de fabricar uma mulher que se torna deusa por carregar todos os atributos da mitologia de uma época. Carregá-los virtualmente. A musa do cinema é uma projeção. Nada mais do que um facho de luz. Um instante no negrume da tela universal. Simplesmente um piscar de olhos. Béatrice, tão normal, tão ela, era outra graças ao que dela roubara a fresta da câmera. Uma silhueta.
Banal, insistiu ela: “o cinema fala do que não existe”. Toda crítica, preocupada com o realismo, nega a alma cinematográfica: a ilusão consentida. E Béatrice exibiu os olhos azuis que não tinha, apenas para que o mar não se constrangesse, justo para que as ruas a percebessem como era, personagem, fábula, pedaço de um filme maldito, cruel, romântico, melancólico, permanente por um instante.
Sob os paralelepípedos, não a praia, nem somente a imaginação, mas um emaranhado de películas, de subterrâneos, de roteiros, de caminhos, de sementes. Se mentes, dizia Béatrice em outro filme, sem Betty, sem fogo, sem brilho, enterrras a chama sob os ladrilhos da ruela em que pisas. Porém, não há filme sem mentira, não há ruela sem menina, não há paixão sem alguém como Betty.
Fenômeno de geração, explicou um crítico: ninguém, com menos de 30 anos, sabe quem foi Betty Blue, insistiu. Mas ela não foi. Era apenas uma miragem, um pouco como Bardot, com menos beleza e mais virulência. Sinal dos tempos: da sedução à transgressão. O cinema, disse, repentinamente Béatrice, saindo de um torpor de sol maduro, saltou da sedução que transgredia para o obsceno que não choca.
Verdade? Quem sabe? Béatrice Dalle divertia-se no papel de musa pensadora e já fazia poses para Rodin quando a brisa do mar advertiu-a de que as idéias desmancham-se no ar, sobrando nada mais do que a etérea sensação do interdito quebrado pelo doce balanço das palavras a caminho das obras. Quando a letra ganha forma, a emoção soletra um bocejo.
As falas de Béatrice surgiam na tela sob a forma de inscrições coloridas e precárias. Era escritas enquanto o filme se fazia por meio de gestos absurdos. Béatrice, símbolo de uma época de nostalgia, marca de uma lembrança, a de outras mulheres, de verdadeiros mitos, presença obsessiva capaz de assinalar a ausência de uma era em decadência. Béatrice Dalle, aliás Betty Blue, era o emblema de um filme já visto, o esvaziamento do conteúdo pela tristeza da forma.
Bela, não era. Célebre, fora. Futuro? Recusava o tempo. Quem era de Béatrice? Uma imagem.
Um sul-americano com ar de Maradona gritou-lhe:
- Dale, Béatrice.
Com uma careta, Béatrice rodopiou e sumiu, deixando atrás de si um rastro de celulóide amarrotado.
Saí dali e fui escrever livros.
Mais de 15 anos depois, aqui estou divulgando 1930 e Getúlio.
Tudo por R$ 35,90.
Quem não ligar agora para (51) 32161600 ou escrever para a Vanessa (valves@correiodopovo.com.br) ficará como eu depois da partida da Béatrice. Restam menos de 50 exemplares.