As ilusões da meritocracia
Perguntam-me porque critico a meritocracia.
Retomo argumentos.
A meritocracia é um sistema de hierarquia social que reproduz uma situação historicamente dominante.
O julgamento pelo mérito é o melhor e o mais justo quando há condições iguais ou semelhantes de preparação.
O que afere o exame pelo mérito? O mais inteligente? Não necessariamente. O mais bem preparado? Sim. Por quê? Por ser o mais inteligente ou por ter tido as melhores condições de preparação? O sistema de julgamento pelo mérito, em condições históricas concretas, pode levar ao contrário do seu pressuposto, reproduzindo desigualdades historicamente construídas, na medida em que põe em competição indivíduos em condições de preparação diametralmente opostas.
Quando indivíduos em igualdade de condições de preparação alcançam resultados diferentes, é licito pensar que a disputa foi bem resolvida. Se alguém não se preparou, isso vira uma questão pessoal. Ou mesmo uma questão de talento. Pensem em Barrichello e Schumacher. Pensem em Vettel competindo com um piloto a bordo de um carro que toma um segundo por volta e termina seis voltas atrás. Há mérito. A fórmula 1 não consagra francamente o mérito do melhor piloto, mas o mérito do melhor carro. Não há condições iguais de disputa entre os pilotos.
Quando, porém, o indivíduo não teve condições semelhantes de preparação às dos seus concorrentes por causa de uma desigualdade historicamente construída, atribuir o fracasso à sua falta de esforço pode beirar à perversidade ou ao sofisma. É verdade que excepcionalmente alguns conseguem superar a adversidade e vencer em condições absolutamente desiguais de preparação e de competição.
O critério universal do mérito pode converter-se em instrumento local de manutenção dos privilégios daqueles que, mesmo não tendo obrigatoriamente buscado vantagens, encontram-se num patamar favorecido da escala social.
O sistema de julgamento pelo mérito capta um instante da realidade, não necessariamente o seu processo.
As condições de preparação incluem a educação formal e existencial. Numa família com boa formação sobre o que é objeto de julgamento, o filho aprende no almoço ou nas férias.
Obviamente que soluções artificiais podem gerar distorções e prejudicar esforçados ou nem tão aquinhoados assim. Mas por que se deve selecionar com base numa competição entre estudantes em condições de preparação desiguais aqueles que ingressarão na universidade? Parecem existir apenas três respostas: 1) Porque só os melhores devem entrar mesmo (concepção elitista), os demais devendo aprender ofícios técnicos. 2) Porque os governos perversamente não liberam recursos existentes para investimentos em educação capazes de melhorar o ensino básico dando condições semelhantes de preparação a todos e aumentando as vagas no ensino superior (concepção ideológica). 3) Por falta de recursos (concepção pragmática). Por que um governo como o atual deixaria de investir pesadamente em educação se pudesse?
Resta a hipótese da escassez de recursos. É o que parece sinalizar qualquer governo. Volta-se à questão do estoque limitado. Como distribuí-lo? Pelo mérito? Essa não é uma ilusória maneira de aplicar um critério universal e puro? Esse não é um álibi para reproduzir a desigualdade social historicamente construída? Por que os escassos recursos públicos deveriam ser dados aos melhores quando esses melhores podem pagar?. Um leitor entende que um veículo sério não deveria dar espaço para esse tipo de discussão. Eu sempre achei o contrário.
Em outras palavras, não há mérito em vencer alguém que não teve as mesmas condições de preparação.
Condições iguais não significa fazer uma prova na mesma hora e numa mesma sala.
A meritocracia falseia o mérito. Aquele que entra é melhor porque entra e, tendo entrado, será o melhor.
Até no mundo econômico se exigem compensações para evitar competição desleal.
A meritocracia na educação, em busca de vagas nas universidades, privilegia a competição desleal.
Pierre Bourdieu já estou essas ilusões em "Os herdeiro" e "A reprodução".
A universidade sabe mais sobre isso do que o senso comum da mídia e dos conservadores.
Esse é o problema: a universidade está à frente do seu tempo. Por isso é considerada ultrapassada.
A meritocracia é um sistema de hierarquia social que reproduz a falta de mérito na medida em que coloca em disputa, quando chega a fazê-lo, pessoas com condições de preparação diametralmente opostas.
A meritocracia extrema é um sistema de hierarquia social que reproduz a desigualdade na medida em que nem permite a disputa. A maioria nem chega a poder participar do jogo.