Ter negros exigia muita sabedoria!
O historiador norte-americano Spencer Leitman escreveu: “O estancieiro que possuía negros poderia concordar com a recente abolição do tráfico de escravos, mas não permitiria a emancipação. Foi precisamente esta maneira de ser que levou a elite da fronteira a manter uma estrutura social bastante estratificada durante a Guerra dos Farrapos, mesmo quando enfrentava a derrota” Se Rivera chegou a contar com cinco mil soldados negros nas suas guerras, os farrapos nunca passaram de 600, mesmo se a população da província, em torno de 170 mil pessoas, contasse com 40 mil escravos.
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“Bento Gonçalves tinha prazer em dizer que era talvez o homem mais pobre do Rio Grande do Sul, o que não era verdade. Quando morreu em 1847, sua estância Christal na área de Camaquã tinha cinquenta e três escravos e valia cinquenta e sete contos. Tanto ele como seus filhos possuíam grandes extensões de terra na Banda Oriental”.
Bento Gonçalves morreu dois depois do fim da guerra civil.
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O coronel Souza Docca foi talvez o mais ferrenho opositor da tese do separatismo farroupilha. Em 20 de setembro de 1936, ele pronunciou no Centro Gaúcho de São Paulo a conferência “O porquê da brasilidade farroupilha”. Já na abertura da sua fala, depois publicada como brochura, rotulou a ideia do separatismo e do caráter platino da revolução gaúcha de “lendas” e de “invencionices”. Para sustentar as suas ideias, traçou o itinerário da história do Rio Grande validando todos os mitos que ainda perduram. Segundo ele, não se teria generalizado entre os rio-grandenses o trabalho servil, embora os primeiros escravos tenham chegado em 1737. As conclusões de Souza Docca são curiosas. Citando Aurélio Porto, afirma que, nos registros de Viamão, entre 1747 e 1753, aconteceram 37 óbitos de brancos para 179 nascimentos e 12 óbitos de negros para 12 nascimentos.
Daí a sua surpreendente ilação: “O clima rio-grandense, com suas mudanças bruscas de temperatura, é hostil ao negro, pela impropriedade de seu aparelho respiratório para esse clima” (1936, p. 11). O racismo de Souza Docca reaparece em afirmações como esta: “Predominou entre os casais portugueses o açoriano e com isso só tivemos a lucrar sob o ponto de vista moral e físico”. Ou: “O tipo ariano predominou na formação do povo rio-grandense”. (1936, p. 12). Docca (1936, p. 18) encontra em Saint-Hilaire uma observação racista para valorizar o rio-grandense em relação ao platino: “Os homens da Capitania do Rio Grande são infinitamente superiores aos espanhóis (platinos) porque a maior parte de entre eles são de raça pura”. A elite gaúcha seria uma “progênie de centauros” incapaz de praticar o caudilhismo e de maltratar seus escravos. A estância seria o espaço da cooperação e do entendimento, a democracia campeira. Até Dante de Laytano, o historiador da sua geração que mais criticou a ausência de estudos sobre o papel do negro na cultura do Rio Grande do Sul, caiu na idealização das boas relações entre escravos e senhores no Brasil meridional, reforçando o mito de que nas estâncias a mão-de-obra escrava era diminuta e bem tratada. Já Assis Brasil, como Souza Docca, entendia que o papel dos negros e dos índios na formação da cultura “gaúcha” fora diminuto. Praticaram o racismo cívico.
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José Gabriel Teixeira tirou o Hino Rio-grandense do esquecimento: “Hino esse que escrevi por simples reminiscência em outubro de 1887” (Almanak Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul, 1911, p. 151). Publicou-o no jornal “A Federação”, em 3 de outubro daquele ano. Depois de ler um artigo no Jornal do Commercio, resolveu rebater duas observações do Dr. Assis Brasil, a de que o hino espontâneo e popular da Revolução Farroupilha era a música “Senhor Neto, vá-se embora” e de que o hino de Mendanha era uma encomenda a um prisioneiro tocada uma única vez. Não podia aceitar como hino revolucionário uma chacota (“Senhor Neto, vá-se embora/Não se meta a capadócio/Vá cuidar dos parelheiros,/Que fará melhor negócio”), “arranjada por algum legalista”. Além disso, afirmava categoricamente, a música de “Senhor Neto” era plagiada de Mozart, como se poderia ver num reles “estudo para principiantes”, de Francisco Hunten, “sob nº 2 a fl. 50 do muito vulgar método para estudo de piano” (Almanak, 1911, p. 155).
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História regional da infâmia: o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras.