Juremir Machado da Silva

Atentados em eleições: 1930 e 2018

Jair Bolsonaro sofreu um atentado em Juiz de Fora, cidade de onde saiu o golpe de 1964.

Um homem foi preso: Adélio Bispo de Oliveira.

Ele é natural de Montes Claros, Minas Gerais.

Isso faz pensar sobre as tristes coincidências da história.

Em 1930, águas da revolução, conto o atentado em  Montes Claros, na campanha eleitoral de 1930.

O Brasil não muda?

*

Os ânimos não param de se acirrar.

Um trem partirá, em 6 de fevereiro, da Central do Brasil com uma comitiva da Concentração Conservadora, pilar do situacionismo. Entre os viajantes está o vice-presidente da República, Fernando Melo Viana, mineiro, que, não tendo conseguido ser candidato ao governo de Minas Gerais, virara a casaca e passara a apoiar Prestes.

Chegam a Montes Claros às 23h25.

Um boletim distribuído na cidade pela Aliança Liberal pede cautela e respeito à ordem: "Recomendamos a todos os nossos correligionários a máxima tolerância para com os adversários, evitando quaisquer discussões ou atritos e mesmo coparticipações em reuniões, mas tratando-os sempre com a devida cortesia".


A comitiva, sob intenso foguetório comemorativo, segue pelas ruas, serpenteia, avança, faz barulho, muda inesperadamente de trajeto passa pela frente da casa de João Alves, chefe local aliancista. Jovens se divertem num baile. O momento é de tensão. Tudo pode acontecer.


– Morra a  Aliança Liberal! – grita alguém.

– Morra! – repetem outros.

Um menino chamado Austílio retruca:

– Viva!

Um foguete dos festeiros cai à porta da casa.

João Alves recua ensanguentado.

O pânico toma conta do lugar. Pipocam as balas.

A revolução terá o seu mártir mais jovem.

Morre Fifi, o menino Austílio  Benjarane Tecles, cuja inocência não suportará um batismo de fogo. A revolução francesa de 1789 teve Joseph Bara, o menino mártir.

O Brasil de 1930 tem Fifi.

Morrem também José Antônio da Conceição, João Soares da Silva, o João Gordo e Rafael Fleury da Rocha, secretário particular do vice-presidente da República, Melo Viana, que, preocupado em fugir a mil por hora, só perceberá a perda do auxiliar horas depois, longe dali. Morrem em Belo Horizonte, para onde foram removidos, Iracy de Oliveira Novais e Moacyr Dolabella Portela.

Seis mortos e 15 feridos, entre os quais, em princípio, o próprio Melo Viana, atingido três vezes.

O presidente Washington Luis, comovido e revoltado, rotulará o episódio de “tocaia dos bugres”. Ele voltará imediatamente do seu descanso em Petrópolis. Trará pronto o decreto de intervenção em Minas Gerais.

Atribui-se prontamente à Dona Tiburtina, mulher brava de João Alves, pintada como megera soltando fogo pelas ventas, uma espécie de mula com cabeça e olhar de bruxa famigerada, um papel decisivo no ocorrido.

No jornal “O Malho”, que não perdoa ninguém e sabe acirrar os ânimos, ela aparecerá caricaturada de escopeta na mão junto a um embornal com farinha e rapadura.

É o momento decisivo. Washington Luis salta sobre a oportunidade. Tenta usar o caso de Montes Claros como um exemplo do comportamento dos homens da Aliança Liberal.

João Neves sintetizará: "O Sr. Washington Luis fez todo o possível para emprestar àquele sangrento episódio o aspecto de uma crise geral de ordem interna e de ausência de garantias para os adversários do governo local. Seu objetivo era transparente: a intervenção federal no Estado de Minas Gerais para vingar-se da atitude do PRM, opondo-se à candidatura oficial, para abater a ousadia do presidente Antônio Carlos, para sufocar a Aliança Liberal. Não o conseguiu. Constitucionalmente, não ocorrera qualquer dos fundamentos que então poderiam legitimar a grave medida".

Aurino de Moares, em Minas na Aliança Liberal e na revolução, dará outra versão dos fatos. Em primeiro lugar, os adeptos da candidatura Prestes concentrarão jagunços da “Granjas Reunidas”, propriedade agrícola dos irmão Dolabella Portela, em Montes Claros para provocar os ânimos. Depois do conflito, Carvalho Brito, preposto de Washington Luis em Minas e integrante da comitiva, mandará um telegrama ao ministro da Justiça manipulando os acontecimentos e inventando os ferimentos de Viana: "Urgente – Dr. Viana de Castelo – Rio – De Montes Claros – Chegada especial nesta cidade fomos agredidos a tiros, achando-se ferido Melo Viana. Devido falta garantias partiremos dentro uma hora, telegrafando próxima estação. Há mortos e feridos".

Em seguida, Carvalho Brito ordenará o bloqueio dos telégrafos, impedindo qualquer outro comunicado ou informação. Ao diretor dos Telégrafos, Mário Belo, que lhe pergunta se “pode dar saída a todos os despachos”, Brito responderá que é para “manter instruções que demos ao encarregado telégrafos em Montes Claros”.

Ao presidente da República, Carvalho Brito enviará telegrama, assinado por ele e por Melo Viana, descrevendo e episódio com fartura de detalhes controvertidos: "Depois de chegarmos a esta cidade, onde tivemos grande recepção, falando Melo Viana discurso sereno e calmo, respondendo saudação desapaixonada, encaminhamos meio grande massa popular casa destinada hospedagem Melo Viana. Ao defrontar residência chefe aliancista, dr. João Alves, irmão deputado Honorato Alves, fomos alvejados descargas tiros revólveres e carabinas pelas costas, sendo ferido Melo Viana no pescoço parte posterior por três projeteis felizmente sem gravidade e já medicado. Dois dos nossos companheiros de comitiva gravemente feridos. Determinamos nosso regresso imediato para socorrê-los devidamente. Nossos companheiros reagiram à agressão, tendo fugido pessoas que da dita casa os alvejaram. Há mortos e vários feridos, cujos nomes não podemos ainda remeter".

A descrição do jornalista Aurino de Moraes, simpatizante da Aliança Liberal, será bem outra: "A rua Dr. João Pimenta, indo da estação, sai na praça Dr. João Alves, onde está a residência do político que lhe dá o nome. Aí, ao som de uma vitrola, se realiza, com a presença de rapazes e moças da sociedade local, um baile. Casa com portas e janelas abertas, profusamente iluminada. Com surpresa para os que se divertiam, irrompe o cortejo naquela praça, que não era, nem prática nem naturalmente, o caminho indicado para o desfile da caravana depois que deixasse a estação. Da massa concentrista alguns exaltados gritam, em seguida a vivas aos seus chefes, morras à Aliança Liberal e seus dirigentes. O dr. João Alves, de pé, na porta de sua residência, assistia à passagem dos manifestantes. Os seus amigos aproximaram-se, por sua vez, das janelas por detrás das quais observavam o cortejo. Eis quando uma das bombas lançadas pelo fogueteiro da festa cai na porta do chefe aliancista, provocando a queda do menino Austílio e a entrada súbita do dr. João Alves, meio sufocado pelos gases resultantes da explosão e deitando sangue pela boca. Estes fatos, verificados pelos que se encontravam dentro da casa, deram a impressão fulminante de que aquela residência estava sendo atacada, donde resultou uma reação imediata. Deflagra um tiroteio rápido e violento. Tudo ocorreu em menos de três minutos".

Toda guerra é uma guerra de versões.

A imprensa chapa branca deita e rola. O “Barbado” encontra, enfim, razões para mandar mais tropas a Minas. Parte do 10º RI vai de Juiz de Fora para Montes Claros.

Aurino Moraes dirá que Carvalho Brito fugiu de medo, não tendo voltado para medicar os feridos, entre os quais o secretário particular do vice-presidente da República. Melo Viana enviará telegrama ao juiz de direito de Corinto, estação próxima de Montes Claros, pedindo notícias de Fleury. Na fuga, não se olha para trás.

O inquérito concluirá pela inexistência de premeditação de qualquer parte ou de participação do governo mineiro no incidente. O estrago está feito.