Juremir Machado da Silva

Austeridade com os ganhos alheios

Alguém levaria a sério um defensor da abstinência sexual que passasse as suas noites num bordel?

A imagem é grotesca. Às vezes, é preciso ser brutal como um leão numa garagem. Metáforas pálidas levam a conclusões beges. Um político que ganha, somando suas diferentes fontes de renda, mais de cem mil reais por mês não pode ser o porta-voz da necessidade de austeridade. Só se fala na importância de cortar gastos, desde que eles não atinjam quem os propõe. O Brasil está sob o controle de uma elite vampira que suga o sangue da plebe de canudinho. Sangue com uísque é de lamber os beiços. A França já passou por isso. Marie-Noëlle Lienemann até publicou um livro intitulado Os canibais do Estado. Basta procurar na internet. Tudo se encontra na rede. Nada mais ultrapassado do que pedir indicação de hotel em Paris. Quem canibaliza mais, a plebe ou os camarotes?

A turma dos camarotes, por ser numericamente menor, acha que não tem impacto sobre o buraco da bala. Manda a conta para o térreo, que fica de cara para o muro e quase sem raios de sol. O pessoal da cobertura não tem constrangimentos. Considera a fórmula 85/95, que joga o fator previdenciário para escanteio sem lhe dar cartão vermelho, muito perigosa. Talvez essa escala deva mesmo ser móvel de acordo com o aumento da expectativa média de vida. A receita dominante é simples e clara: a minoria se elege, administra e ganha bem. A maioria vota, é administrada e paga a conta dos que tomam as decisões sempre em nome da responsabilidade, do bom senso e do compromisso com o futuro. Conversa para empregado dormir em pé.

Tudo se joga agora. A presidente da República quer vetar a fórmula 85/95. Para isso, precisa mandar ao Congresso Nacional uma proposta alternativa. Qualquer que seja ela, genial ou medíocre, será pior para os trabalhadores do que a 85/95. Especialistas minimamente sinceros sabem que a Previdência não tem rombo. É o mito dos séculos. O problema é que a grana vai parar em outros lugares para cobrir gastos que possivelmente nem deveriam existir. Wladimir Novaes Martinez, criador da fórmula 85/95, ensina o caminho das pedras: “A fórmula 85/95 representa mais do que uma simples soma do tempo de serviço com a idade. Reconhece a distinção legal da mulher, enquanto assim pensar o legislador. Da mesma forma a atividade insalubre, determinante da aposentadoria especial. E, é claro, a situação do professor, que, constitucionalmente, aposenta-se cinco antes dos demais segurados”. É justa e cristalina. Mas não pode ser eterna.

O que faz um leão na garagem? Não sei quem o colocou lá. Mas arranha o carro novinho dos canibais da República. O advogado da Associação Brasileira de Benefício aos Aposentados, Pensionistas e Servidores Públicos (Abasp), Caio Ferrer, mostra as garras sobre o rombo da Previdência: “Trata-se de um mito divulgado pela imprensa para consolar os aposentados”. O economista do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Unicamp, Eduardo Fagnani, completa: “Se somarmos os últimos anos todos esses fatores [de contribuição, vai dar um resultado superavitário”. 85/95 já!

Legislativo, executivo e judiciário adoram cortar gastos. Dos outros.