Eles estão velhos. Mas não parece. Bob Dylan fez 80 anos. O disco da Gal Costa que me fascina fará 50: “Gal a todo vapor”. Eu não costumo gravar nomes de discos. Sei apenas músicas. Às vezes, um pedaço de alguma, que substitui o título da canção. Legal, dizer canção. Quem costuma falar assim é músico, que a gente, ouvinte, diz música mesmo. Aquela música é fantástica. Por exemplo, “Vapor barato”. Eu ouço quando estou triste só para me entristecer mais ainda. Sabe quando a gente quer ir ao fundo do poço com beleza para tentar voltar?
Gosto da voz arranhada de Bob Dylan. Não teria dado o Nobel da literatura para ele. Ou teria? Depende do dia. Quando estou de veneta, dou. Quando estou calmo, não dou. Mas tem poesia nas letras dele. Outro dia, comparei Bob Dylan com Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Cartola. Enfureci muitos. Encontrei apoio em outros tantos. Disseram que são incomparáveis, que é uma maneira de comparar em favor de um. Pelé é incomparável. Pronto, comparou com todos. E ganhou. Por que não se poderia comparar músicos? Compositores? Cantores? Uns acham que Bob Dylan é tão gigantesco que fazer tal comparação seria heresia. Outros, ao contrário, entendem que se Lupi fosse inglês, Richard Lupi, seria visto como um monstro. Noel então! Será viralatice não poder comparar?
Tem os prêmios e as vendas. Mas tudo isso não tem a ver com o “lugar de fala”? Opa! Lugar de canto. Sei lá. Claro que se pode ficar com todos sem comparar. Não funciona assim. O homem se caracteriza pela libido de comparação. De tudo. Tudo. Sei que adoro a Gal e sou louco por esse disco lançado no auge da ditadura por uma cantora no ápice de tudo, da provocação, da sensualidade, do talento, da voz. Gal e Wally Salomão. Que doideira maravilhosa. Eu me atrevo: “O, sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer, que eu não acredito mais em você, com minhas roupas vermelhas, meu casaco de general”. Ah, se os generais usassem casacos vermelhos, não passavam o que eu já passei. Não coloquei aquelas barrinhas para separar versos. Estou rebelde.
Bob Dylan me faz pensar em coisas rascantes. Duvido que o caro leitor tenha pensando assim: rascante. Não tenho muito a fazer na vida. Então, na melancolia, uso palavras como se fossem casacos de general. Vermelhos. Dado que o mar não parece capaz de ter essa cor. Gal fatal em 1971 enquanto o pau comia, a tortura corria, gente morria e diziam que era tudo pelo nosso bem. Fruta gogoia, Antonico e tudo mais. Músicas, canções, poemas, a ditadura se perdia diante de tanta beleza e se afundava ao saber que, se os generais não gostavam da turma e dos seus feitos, as suas filhas adoravam até não poder mais.
Uma voz como a da Gal não surgiu depois dela. E eu estou tão cansado, mas não o bastante para dizer que eu nunca acreditei em você. “Enquanto andava de trem indo para o Oeste, adormeci para descansar, tive um sonho que me deixou triste”. Ouvia o velho Dylan, ouvia Girl Costa, a garota fa-tal de sempre. Casacos de general eram verdes.