Juremir Machado da Silva

Bolsa lua de mel

Bolsa lua de mel

Tenho um compromisso com o jornalismo. Não deixar escapar notícia alguma de grande interesse público. É um trabalho duro, anônimo e até desprezado por alguns. Sem contar que sofro pressões incríveis. Passo os meus dias escavando novidades essenciais na internet. Volta e meia, deparo-me com fatos que deveriam ter figurado nas manchetes de todos os bons jornais do país. Outro dia, por exemplo, tomei conhecimento de um programa do Estado malaio de Tarangganu. Eu me interesso muito por tudo o que acontece em Tarangganu (grafa-se também Terengganu). A minha cultura “wiki” é impressionante. Terengganu (jawi: ???????) é um sultanato muçulmano e um estado federado. A capital é Kuala Terengganu, que limita com Kelantan, a noroeste, e Pahang, a sudoeste. Chega?
Pois Tarangganu criou o bolsa lua de mel, destinado a frear os divórcios. Foi aí que eu compreendi o quanto o Brasil ainda está atrasado em relação a outras nações. Temos o bolsa-família. Não temos o bolsa lua de mel. O bolsa lua de mel malaio garante três dias de folga para o casal e o equivalente a US$ 440 por casal. Infelizmente o programa não financia passagens para uma semana em Paris, Veneza ou Nova York. Um programa consistente precisa dar todos os meios para que os fins sejam atendidos. É o caso da reforma agrária. Não basta dar a terra. É preciso dar assistência técnica, ferramentas e muitos outros elementos fundamentais para o exercício da atividade agrícola. No caso do bolsa lua de mel, na minha concepção, é necessário bancar também champanha, hotel, motel, jantar à luz de velas e lingerie. Em algumas situações, imagino, deve ser decisivo cobrir também o viagra ou algum produto similar. Há quem se contente com ovo de codorna ou gemada com vinho. Dona Dilma deveria incluir no seu programa de governo a criação do bolsa lua de mel. Em certo sentido, trata-se de um apêndice do bolsa-família. Afinal, a lua de mel começa uma família. E pode salvá-la do fracasso. Sou totalmente favorável.
Fico preocupado é com possíveis efeitos perversos de um programa tão cheio de boas intenções. Sabe-se que muitos assentados arrendam ou vendem os seus lotes. Será que algum marido poderá tentar passar adiante os benefícios recebidos? Uma segunda lua de mel não poderá surtir justamente o efeito contrário e sepultar alguns casamentos em estado terminal? Consultei um amigo, especialista nesse tipo de programa, e ouvi dele a seguinte e desconcertante pergunta: “É obrigatório levar a mulher nessa segunda lua de mel?” Um habitante de Tarangganu, segundo fontes que preferem não ser identificadas, teria sugerido uma alternativa ao bolsa lua de mel: voltar a poder ter quatro mulheres. Hummm...
Esse é um problema para países muçulmanos poligâmicos interessados em adotar o programa malaio. Financiar quatro luas de mel por homem poderia representar uma ônus terrível para os cofres públicos. Ou haveria algum tipo de limitação? Vou pesquisar. Só espero que ninguém acuse o ótimo bolsa lua de mel de ser assistencialista ou de servir para comprar votos.