Bolsonarismo vinga-se da educação
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Bolsonarismo vinga-se da educação

Governo mira em quem não o apoia

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Os cortes na educação feitos pelo governo Bolsonaro têm uma unica motivação: vingança contra quem nunca o apoiou por ter uma visão de mundo oposta. Iluminismo versus obscurantismo.

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Saudosistas

 

      Ninguém escolhe a personalidade que tem. Uns sentem saudades. Outros, não. Parece que o saudosismo excessivo é uma doença. Quase tudo é doença atualmente. Deve ser verdade. Não acredito que sentir saudades de um lugar onde se foi feliz seja um sintoma de algo mal resolvido na vida. Conheço muitas pessoas que voltaram ao local de partida para fechar o ciclo. É muito comum na Europa voltar à aldeia de infância para viver os últimos anos. Alguns voltam para comprar a aldeia e declarar vitória. Outros, contudo, retornam ao singelo recanto de onde partiram. Nada mais.

      Sei de idosos brasileiros que desejam terminar a vida em Portugal. Aí está uma ideia que não compreendo. Entendo os aspectos racionais: busca de segurança, de tranquilidade e de estabilidade. Não é fácil conviver com bala perdida, Bolsonaro e buracos de nossas ruas. Mas como fechar o ciclo distante do imaginário afetivo de uma existência? Como acordar de manhã e não ver tudo aquilo que sempre significou alguma coisa? Falar de Benfica e Porto em vez de Grêmio e Internacional com o porteiro do edifício e com os garçons do restaurante? Nunca passar diante da Arena e do Beira-Rio? Não ver o Guaíba encapelado? Não andar na Redenção? Eu morreria de saudades.

      Como estou cada vez mais obcecado por tipologias, vejo cinco tipos de pessoas à beira dos 60 anos neste momento: os que só querem ficar em casa; os que sonham em morar na praia; os que desejam se mudar para Portugal; os que não param de viajar; e os que, como eu, sentem saudades do vilarejo de infância. O que terei eu perdido em Palomas e na Florentina, zona rural de Santana do Livramento, que me faz pensar nessas campanhas pampianas mesmo quando estou em Paris? Admiro os pragmáticos. São pessoas que só olham para frente. Desconfio dos satisfeitos. Só enxergam o aqui e agora. Como Lévi-Strauss, odeio as viagens e os viajantes, especialmente os que contam as suas viagens. Sei que isso é redundância. Compadeço-me dos nostálgicos. Nunca mais viverão no presente.

      Eu me vejo ao cair da tarde em Palomas escutando o saxofone de Oliver Nelson. Dito isso, todos os sons me despertam: por que toda essa melancolia quando ouço “the man with a horn”? Por que esse aperto no coração quando vejo certas pessoas sumirem na dobra da esquina? Por que esse espanto quando leio que D. João II, rei de Portugal, matou o primo com as próprias mãos? Por que essa tristeza ao saber que havia uma gota de sangue em cada poema? Por que essa vontade de escrever crônica como se fosse poesia e poesia como se fosse vinho? Por que esse estremecer face ao inverno? Por que esse sorriso diante da fotografia do rato silvestre?

      Li todo o DSM-5 e não encontrei a explicação para o meu caso. Talvez na próxima edição revista e atualizada. Outro dia, lembrei-me de um pássaro amarelo na cumeeira de um galpão coberto de capim santa-fé. Era um pássaro que assobiava jazz quando eu ainda não sabia que isso existia. Desde então, procuro esse pássaro. Enquanto não o acho, ouço Miles Davis.

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Enquanto ouço Miles Davis, horrorizo-me com o massacre da educação.