Juremir Machado da Silva

Bolsonaro deixou marcas na GloboNews

Bola nas costas

 

Começaram os debates.

Ainda estou processando as entrevistas.

Na sabatina da GloboNews na semana passada, Jair Bolsonaro pregou uma peça na bancada de entrevistadores. De resto, como foram fracos esses jornalistas! Fernando Gabeira foi tão simplório que caberia perguntar: o que é isso, companheiro? Merval Pereira e Gerson Camarotti evitaram sair do lugar comum. Roberto D’Ávila – os antigos saberão de quem estou falando – pratica o estilo da jurada Márcia de Windsor, só levanta a bola suavemente. O mais agressivo que consegue perguntar são coisas assim: como lida com as críticas? É difícil ser político hoje? Andrea Seadi e Mario Sergio Conti, o que já entrevistou um sósia de Felipão como se fosse o verdadeiro, tentaram salvar a lavoura.

Bolsonaro deu um baile em todos. Um vexame. Para arrematar, lembrou que Roberto Marinho, figura tutelar do Grupo Globo, apoiou entusiasticamente a intervenção militar de 1964. O capitão perguntou se Marinho deve ser considerado democrata ou ditador? Uma senhora bola nas costas que obrigou Miriam Leitão, vítima da ditadura, a ler um ditado que lhe foi feito ao ouvido para defender a casa onde trabalha.

No meu livro “1964, golpe midiático-civil-militar”, destaquei o apoio do jornal O Globo à queda de Jango em manchetes: “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restaurada”. Um estrondo: “Atendendo aos anseios nacionais de paz, tranquilidade e progresso… as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-a do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal”. Além de defender o golpe, como renascimento da democracia, em editorial, O Globo já disseminava amplamente fake news. Como esta de 5 de abril de 1964: “A Revolução democrática antecedeu em um mês a revolução comunista”.

Como esquecer esta saudação de O Globo ao golpe contra Jango no melhor estilo Bolsonaro: “Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem”. Se quisesse e conhecesse um pouco mais de história, Jair Bolsonaro poderia citar o editorial assinado por Roberto Marinho, na capa do seu jornal, para comemorar, em 1984, os vinte anos da “gloriosa”. Ele reincidia: “Temos permanecido fiéis aos seus objetivos”, as metas da “revolução”. Não deixava dúvidas: “Prosseguimos apoiando o movimento vitorioso desde os primeiros momentos de correção de rumos até o atual processo de abertura, que se deverá consolidar com a posse do novo presidente”.

Miriam Leitão pagou o mico de ler que em 31 de agosto 2013, passados 49 anos, o Grupo Globo publicou, enfim, editorial de arrependimento. Roberto Marinho já não existia. Ele nunca se arrependeu. O suposto pedido de desculpas nunca passou de uma peça de marketing, terminando por se desdizer ao sustentar que, no contexto de 1964, não havia como adotar outra posição: “Naquele contexto, o golpe, chamado de ‘Revolução’, termo adotado pelo GLOBO durante muito tempo, era visto pelo jornal como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia”.

Apanhar de Bolsonaro em casa deve ser muito duro.