Bolsonaro já falou hoje?
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Bolsonaro já falou hoje?

Todo dia o presidente dá o que falar

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 Jair Bolsonaro entrega o que promete. Ele prometeu ser ele mesmo. Não falha. Todo dia, sem descanso, atira no próprio pé fazendo paradoxalmente a alegria dos seus adeptos. Num dia, relativiza o desmatamento da Amazônia e desmente números oficiais. No outro, afirma que só veganos se interessam pela proteção ao meio ambiente. Infatigável, promete liberar a mineração em terras indígenas em troca de apoio a seu filho para o cargo de embaixador nos Estados Unidos. Nepotismo não é algo que o constranja. O familismo é uma prática que adota há mais de 30 anos.

      O homem é um fenômeno de comunicação. Diz a coisa errada no lugar errado sempre que pode. Todo dia. Defende que o jornalista Glenn Greenwald “tome uma cana”. Por ter cumprido o seu papel de divulgar material de interesse público? Rotula o sujeito de malandro por ter casado com outro homem e adotado filhos. Bolsonaro pratica o preconceito com a desenvoltura de um trator ou de um censor numa redação de jornal. Chamou nordestinos de “paraíbas”. Depois, estrategicamente, disse não ter dito o que foi ouvido dizendo. No melhor estilo ditadura militar, quer censura para filmes, que chamou eufemisticamente de “filtros”. Diante de perguntas incômodas, respondeu comodamente com a grosseria de sempre.

      Num arroubo de inspiração truculenta, atacou a jornalista Miriam Leitão. Afirmou que ela mente sobre ter sido torturada. Não apresentou qualquer prova de que suas afirmações são mais do que provocações escandalosas. No mesmo caminho sem volta, disparou contra o atual presidente da OAB, prometendo revelar com o pai do advogado teria sido morto durante o regime militar. Revelações sobre os porões da tortura? Não. Apenas uma sugestão sem bases concretas de que Fernando Santa Cruz teria sido executado por seus companheiros de militância. Foi o apogeu da sua escalada contra verdades que o deixam fora da razão. No Esfera Pública, na Rádio Guaíba, o jurista Miguel Reale Júnior, o homem que encabeçou o pedido de impeachment de Dilma Rousseff, não se conteve: “Bolsonaro não é um caso de impeachment, mas de interdição”. Assim.

      A fome no Brasil, segundo Bolsonaro, é uma grande mentira. As barrigas roncam certamente por gosto musical. Se a realidade não tem a sua ideologia, ele se permite alterá-la por decreto oral em doses cavalares. O mundo espanta-se com suas atitudes. Bolsonaro espanta-se com o mundo. Muitos dos seus defensores sustentam que a Terra é plana. A piada do momento é simples, até simplória, mas impactante. A pessoa acorda de manhã e pergunta de cara: “Bolsonaro já ofendeu alguém hoje?” Noutra versão, a pergunta é mais direta: “Bolsonaro já falou alguma asneira hoje?” A resposta é invariável: “Ainda não”. O comentário que segue também não varia: “Então é cedo. Posso dormir mais um pouco”.

      Há quem goste. Muita gente saiu do armário ideológico e está deitando e rolando. Outros, felizes, imaginam que os “bons” tempos do regime militar voltaram. Jornais como o New York Times, diário com certeza comunista, não entendem o salto quântico do bolsonarismo.  Nem eu.O presidente lacra todo dia para o seu nicho. Quanto  mais lacra, mais encalacra o Brasil. Diz ele que não é estratégia.

Que nome dar então?