Quem ganha?
Superada a comoção com o atentado a Jair Bolsonaro voltam os cálculos: quem ganha? Quem perde? Quem muda? Na condição de vítima, o candidato do PSL teria pedido aos aliados para baixar o tom. Na prática, deixou-se fotografar no leito hospitalar fazendo sinal de tiro. Nada de novo na frente de batalha. O PSDB tirou do ar a campanha que bombardeava Bolsonaro como machista inveterado. A trégua vai durar quanto tempo? Um dos filhos do Bolsonaro declarou logo depois do crime que haviam acabado de eleger o seu pai presidente da República. Será? A primeira pesquisa séria depois da facada mostrou um crescimento pífio de Bolsonaro. No segundo turno, ele perde para todo mundo, até para Haddad, que ainda nem foi pesquisado como candidato ungido por Lula.
Restam as marcas do crime de Juiz de Fora. Embora todos os indícios desde o começo indicassem um lobo solitário com problemas mentais, a tropa de Bolsonaro tratou de imputar o inadmissível ato ao PT. O general Hamilton Mourão disparou: “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”. Vai pedir desculpas pela irresponsabilidade? Em princípio, Bolsonaro ganhou em exposição na mídia, especialmente na televisão, e em empatia. Quem não se compadece de um homem ferido? A sua turma armamentista vai explorar a ideia de que o problema não é a arma de fogo. A faca provocaria que se pode matar sem balas. Basta querer.
Outro argumento será esgrimido para tentar conter essa investida: se estivéssemos nos Estados Unidos, com fácil acesso a armas, o desvairado teria disparado contra o candidato e contra a multidão. Seria um massacre. A facada em Juiz de Fora acendeu alucinações conspiratórias. De um lado, apostou-se na armação. Bolsonaro teria combinado até com a Rede Globo o atentado para se vitimizar. A prova da ficção seria a falta de sangue jorrando. Do outro lado, o absurdo só poderia ter a assinatura organizada da esquerda e seria ingenuidade ou má-fé pensar ou sustentar o contrário. Como a vida costuma ser mais complexa, o mais simples deve ser a verdade.
Nada que leve sensatez à maioria. Em sabatina na Globo News, o general Mourão, vice na chapa de Bolsonaro, deu um passo à frente: admitiu que, em acaso de “anarquia”, poderá haver intervenção militar. Segundo ele, o comandante, ou seja, o presidente da República, entendendo que há “anomia”, pode optar por um “autogolpe”. Mourão aproveitou também para defender Brilhante Ustra, considerado um dos mais infames torturadores do regime militar: "Meus heróis não morreram de overdose. Carlos Alberto Brilhante Ustra foi meu comandante quando eu era tenente em São Leopoldo. Um homem de coragem, um homem de determinação que me ensinou muita coisa". Para Mourão, Ustra foi herói. E, precisou sem hesitar, “heróis matam”.
A campanha eleitoral toma novo rumo.
Qual? Mais ponderações e propostas? Menos agressividade e mais racionalidade? O marketing de Bolsonaro pretende mostrar a camiseta amarela do candidato com um rasgo de faca e uma mancha de sangue. Sensacionalismo? Apelação? O presidente nacional do PSL, Gustavo Bebianno, foi categórico depois do atentado: “Agora é guerra”. Passado o susto, ficou pragmático: "Tem que manter vivo na memória das pessoas. Se fosse um atentado ao boneco do Lula, óóó, estariam fazendo um drama monstruoso. Agora, quase mataram o sujeito e tentam minimizar. A gente não se faz de vítima, mas também não vamos deixar esquecer”. A trégua não tinha futuro. Ciro Gomes disparou: Bolsonaro foi atingido na barriga. A cabeça continua a mesma.
O Comitê de Direitos Humanos da ONU reiterou: Lula deve ser candidato.
Para que se tornar signatário de pactos internacionais se não é para cumpri-los.
Perde-se em soberania nacional? Esse é a a lógica desse tipo de pacto.
Perde-se algo para ganhar outra coisa.
Se não quer, se não aceita, é só não aderir.